A tragédia de Goiânia: sobre os jovens invisíveis que estão por ai

Já disse em outro artigo (Facebook é bom, mas é ruim) o quanto as Redes Sociais tem “autorizado” as pessoas a assumirem posições públicas como se fossem profissionais especializados no tema em discussão. Divulgam suas opiniões e/ou compartilham notícias (nem sempre fidedignas ou pertinentes) e contribuem para um debate tenso, acalorado e às vezes cheio de preconceitos. Também deixei claro, no mesmo artigo, que não vejo problemas nesse fenômeno, ele existe desde o inicio da civilização humana e tem lá seus objetivos no processo de construção da sociedade. Além disso, jamais considerarei a simples censura das manifestações das pessoas como algo produtivo (assunto abordado em outro artigo: “Pelo seu direito de ser contra mim, luto sim”). Nesse também pontuei que "quem dá bom dia a cavalo tem que estar preparado para os coices”, afinal pra todo ato de liberdade há que se proporcionalmente conviver com a responsabilidade inerente ao fato, assumir suas conseqüências.  

Cabe salientar a necessidade de refletirmos (ou adotar maior cautela) ao nos posicionarmos sobre tragédias sociais como a ocorrida, infelizmente, na cidade de Goiânia recentemente, onde um jovem adolescente matou seus colegas de classe, por conta de ter sido insultado por alguns destes. Por que ocorreu, seria bullying? De quem é a responsabilidade? Qual o papel dos pais e da escola no ocorrido?

Sempre haverá algumas tentativas de respostas, quase sempre baseadas na visão de mundo de cada um, algumas afirmações exageradas ou posições assumidas sem o devido respeito às dores dos envolvidos numa tragédia como essa. Li nas Redes Sociais, pessoas querendo discutir se o conceito de bullying (contra ou a favor) é pertinente à situação, outras (no alto de suas arrogâncias) condenando algumas das pessoas e instituições envolvidas. O fato é que todos nós de alguma maneira tentamos buscar explicações para o ocorrido.

Entendo que nesses casos, ao se ouvir ou conhecer estas opiniões devemos sempre procurar saber quem está falando e porque  ao invés de simplesmente concordar ou discordar do exposto, tentar perceber, na opinião dada, elementos que anteriormente não havíamos valorizado ou percebido.  A meu ver, jamais conseguiremos compreender um fato desses em sua totalidade. Esse é o ponto: do cotidiano sempre nos escapa algo, principalmente quando assumimos a postura de ter a nossa resposta, sem ouvir ou prestar atenção a outras perguntas e/ou possibilidades.

Sendo assim, o mais intrigante, a meu ver, são os indícios de que algo estranho (provavelmente um sofrimento) estava ocorrendo com este garoto e não foi percebido pelas pessoas do seu cotidiano. Pelo menos não a ponto de oferecer-lhe alguma outra saída ou possibilidade de elaboração que não fosse essa tão trágica. Estava invisível!

No ano passado, no Rio de Janeiro foi feito uma pesquisa indicando que 30 % dos adolescentes pesquisados eram portadores ou já haviam tido algum transtorno mental. Ou seja, um em cada três jovens tinham sua saúde mental comprometida. E ai uma pergunta não quer se calar: quantos desses jovens estamos percebendo ou atentos ao seu sofrimento? Em nossa vizinhança, se a porcentagem é tão alta, com certeza deve haver algum potencialmente “sofredor”. Você sabe quem são e onde estão? Ou não existem aos seus olhos?

E antes que os desavisados se adiantem em dizer que isso é um fenômeno próprio das classes sociais menos favorecidas e/ou de famílias ditas disfuncionais, a “ironia do destino” nos mostrou, lá em Goiânia, que não é bem assim, pois até onde eu sei a tragédia não aconteceu numa favela ou num colégio público e sem recursos.

Alguns chamarão de bullying, outros darão qualquer explicação. Prefiro afirmar que para mim mais um jovem estava sofrendo e não foi percebido. Sinto muito, mas me parece que há muitos invisíveis, atualmente, em nossa sociedade, e não são somente os moradores de rua, são também alguns jovens em bairro nobres e com recursos, mas sem o nosso amor. 

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