Sol de primavera, setembro amarelo e a lição a ser aprendida.

Um dos discos do cantor Beto Guedes que eu mais gosto chama-se “Sol de Primavera” (1979). Sempre que o ouço, inspira-me renovação, vida nova e renascimento, além de fazer parte da trilha sonora de uma época em minha juventude de aventuras e descobertas sobre mim mesmo – adolescência. Numa das canções (que deu nome a obra), Beto diz: “já choramos muito, muitos se perderam no caminho, mesmo assim não custa inventar, uma nova canção que venha nos trazer, Sol de primavera, abre as janelas do meu peito, a lição sabemos de cor, só nos resta aprender”. Aqui o compositor se refere à estação “primavera” como um tempo onde há necessidade de termos expectativas (no peito) da/na reinvenção do nosso cotidiano, indicando, inclusive, sofrimento por nossa “teimosia” em não colocar em prática as lições aprendidas no caminho (da nossa história). “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos”, assim inicia-se essa canção que, a meu ver, reverencia a vida, apesar de suas dores.Aliás, o disco inteiro, mantém essa proposta em suas 10 canções: “como nunca”; “cruzada”, “rio doce”, “roupa nova”, “pedras rolando”, “norwegian wood”, “pela claridade da nossa casa”, “monte azul”, fechando com uma valsinha, “casinha de palha”, onde sugere o quão belo pode ser o simples. Ou seja, em “Sol de Primavera” o compositor nos brinda com uma “ode” á esperança em nosso dia a dia.

Sendo assim, podemos dizer que este disco é mais uma obra artística (entre tantas outras), em nossa cultura, que pontua a primavera, que se inicia em setembro (a temporada das flores e do amor na natureza),como a estação que potencializa nossa esperança na vida. Curiosamente, desde 2015, o CVV (Centro de Valorização da Vida), o CFM (Conselho Federal de Medicina)e a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), criaram o “Setembro Amarelo” que é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção, por meio da identificação de locais públicos e particulares com a cor amarela e ampla divulgação de informações sobre o tema. Fica a questão, haveria alguma analogia pertinente entre uma campanha de prevenção do suicídio e a estação do amor? O que tem a ver o suicídio (a opção pela morte) com a primavera (a esperança na vida)?

Vários são os preconceitos a respeito daquele que abandona, ou tenta abandonar  sua vida de forma voluntária. Por outro lado, também costumam aparecer, nessa situação, crenças sobre a morte e o seu significado. Alguns falam em enorme sofrimento posterior ao suicídio, outros falam em recompensas do outro lado (se o ato foi em prol de alguma ideologia), há até aqueles que dizem que o suicida continuará vagando por este mundo sem direito a “estar em paz”. O fato é que não conseguimos refletir especificamente sobre nossa finitude em si, e, como forma de “disfarce”, pensamos na morte, sempre, como uma espécie de passagem. Aliás, segundo a psicanálise, tai uma impossibilidade da nossa psique: visualizar, perceber ou conceber a própria morte. Sendo assim, e pensando no ato suicida, podemos dizer que seu significado está sempre relacionado a alguma “reação” em relação à própria vida, e não o contrário, ou seja, a morte. Portanto, excluindo aquelas atitudes baseadas em ideologias religiosas (onde sempre há uma doutrinação “fanática” do sujeito), todo suicídio, de uma forma ou de outra, é um pedido de ajuda. Preveni-lo seria potencializar, na sociedade,a capacidade de acolher as pessoas e suas dores. Daí, eu concordar com a chamada da campanha, “falar é a melhor solução”. Afinal, só é possível perceber, acolher e compreender a dor das pessoas, se elas puderem falar dela (a dor) para o outro sem haver nenhum constrangimento. Acredite, falar da possibilidade de opção pelo suicídio cria uma chance de novamente optar-se pela vida. Portanto, esqueça aquela ideia de que “Setembro Amarelo” está divulgando ideias sobre, ou valorizando, a morte.  Na verdade, a campanha propõe que há alternativas para vivenciar as dores, acolhendo a ideia da morte, mas sugerindo a luta pela vida.

Nesse caso, mais uma vez, temos que admitir que a arte, com sua forma de compreender as dores da vida com beleza e criatividade, nos ensinou esse caminho. Ao falar da primavera, como “a boa nova nos campos”, e, ao mesmo tempo, associar a ideia de que “já choramos muito, muitos se perderam no caminho”, o cantor Beto Guedes, faz a gente perceber em versos melodiosos o quanto a estação do amor (a Primavera) também acolhe as frustrações, pois possibilita “ver crescer nossa voz no que falta sonhar”. E se a campanha “Setembro Amarelo”, em relação ao suicídio, nos diz que “falar é a melhor solução”, Beto “profetiza: “a lição sabemos de cor”... só nos resta aprender”. 

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