Quando um simples dedo pode matar

A campanha do “Novembro Azul” foi criada para atender a necessidade de esclarecimento aos homens quanto à prevenção e o  diagnóstico precoce do câncer de próstata. A doença, sem dúvida, merece cuidados  pois  esse tipo de câncer é o mais frequente no sexo masculino, fica atrás apenas do câncer de pele não melanoma. Estatísticas apontam que a cada seis homens, um é portador da doença.

A estimativa é de que até 2014, 69 mil novos casos sejam diagnosticados a cada ano, ou seja, a descoberta de um caso a cada 7,6 minutos, a cada 8 minutos algum homem pode ser diagnosticado como portador da doença. Evitar a doença não é possível, mas diagnosticá-la precocemente é fundamental, pois as chances de cura são de cera de 90%.

 Eis ai o chamado “problema”, pois para fazer a detecção precoce o homem precisa que seja enfiado um dedo no seu ânus para a palpação da glândula e percepção das suas condições. “Macho que é macho jamais recebe algo em seu ânus dessa forma, isso é coisa para os homossexuais”. Mentira! Cá entre nós, uma companheira “jeitosa” e sedutora, ás vezes, até faz a mesma ação e o “sujeito” homem até gosta, pois na cama o que vale é a sensibilização prazerosa da pele e/ou regiões bastante sensíveis (como o ânus). Coisa que nenhum “homem” admitirá, principalmente se sua orientação sexual for heterossexual. O irônico dessa história é que um simples dedo colocado num local cause tanta polêmica. Dedo aqui jamais!

Obviamente que a questão toda esta relacionada a tal masculinidade: um conjunto de atributos, comportamentos e papeis geralmente associados a meninos e homens, construída socialmente, porém definida por fatores biológicos, ou seja, faz parte dos nossos instintos de sobrevivência e reprodução. Masculinidade é quando você exala energia masculina, um polo de comportamento masculino. Helen Fisher em seu famoso livro “Anatomia do amor – a história natural da monogamia, do adultério e do divorcio”, nos brinda com uma enormidade de estudos científicos, rigorosamente construídos, que nos aponta uma série de conclusões fundamentais nesse tema. Por exemplo, “a natureza sempre triunfa”. Nesse sentido a masculinidade impõe, instintivamente, uma tendência ao homem de coragem, independência e assertividade com consequentes comportamentos mais robustos, agressivos, territorialista, com certa frieza emocional, uma valentia e tendência à liderança e de proteção dos mais fracos. Essas características foram fundamentais para que o macho pudesse proteger a fêmea e sua prole no mundo selvagem. Daí a perpetuação da espécie humana.

Com o processo civilizatório, foi preciso adaptar todo esse comportamento meio “ogro” a uma boa base moral e ética, adquirindo valores e crenças culturais que pudessem tornar este sujeito num homem de respeito. Aquele que reverencia sua fêmea enquanto companheira, e mesmo com o fato de instintivamente sempre desejar protege-la, não tem o direito de posse sobre ela ou de desvalorizá-la também enquanto outra pessoa que merece respeito. Portanto, um verdadeiro macho sem machismo, que conseguiu se lapidar, e adquirir a hombridade.

Assim entendo que deveria ser, mas na prática, e infelizmente ainda a maioria, o que vemos é a permanência daquele “macho do mundo selvagem” que se diz forte, robusto, “vencedor”, porém se comportando como um menino assustado que por medo de um dedo, coloca em risco a própria vida.

Dai a necessidade do “Novembro Azul” como campanha fundamental para a saúde do homem. 

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