Pra que ou por que fazer aniversário

Em 15 de novembro faço aniversário: para mim, momento de reflexões, sendo também oportunidade de celebração com os amigos, talvez rever cenas e emoções que tenham tido significado especial.
O fato é que, a despeito do que se faça nessa ocasião, passar por um aniversário é sempre um momento diferente e sui generis. Fico pensando cá com meus botões: o que será que faz desta experiência algo assim tão importante? Por que algumas pessoas se negam a torná-lo público?   A resposta pode ser encontrada na simplicidade do raciocínio que acolhe e aceita a condição humana: quando da evolução de nossa espécie, adquirimos uma capacidade única de refletir sobre nossa existência, assistimos e atuamos nas cenas de nossa vida, como num filme que se assiste e protagoniza ao mesmo tempo. Ou seja, a reflexão nos leva ao céu da ilimitada sensação de criar, nos faz sentir criador entre as criaturas; e também nos empurra ao inferno da inacabada condição de estar vivo, nos faz insatisfeito entre necessidades inesgotáveis.

Em tese, vemos o mundo em nossa mente, portanto onipotentemente nos fazemos superiores, mas também estamos com os pés cravados no chão onde nos sentimos pequenos e angustiados pelo que ainda não veio ou não temos. A vida pulsa no mesmo coração do ser que convive com a sua “morte” inevitavelmente se aproximando todos os dias. E desse conflito nasce a necessidade de se ter referências indispensáveis para melhor assimilar o que se apresenta a nós ao longo de nossa história. As emoções são como cavalos selvagens cavalgando sem rumo e sem direção até que lhes seja dado uma rédea – o tempo.

Para melhor compreender esta necessidade de “aniversariar” a história é fundamental não esquecer o quanto as vivências atropelam nossa capacidade de raciocínio, como também não menosprezar as emoções que nos cegam pela sua intensidade e diversidade. Saliento, as experiências que podem ser multiplicadas e replicadas dentro de cada uma de nós, quase nos enlouquecendo de tantas e tão diversificadas informações. Portanto, ter uma data a ser comemorada é como fazer uma “colcha de retalhos” da vida – é preciso construir um pedaço de cada vez até que se consiga vê-la por inteiro. Cada aniversário é uma espécie de “pause” na fita de vídeo da vida para que o espectador possa compreender melhor todas as cenas vivenciadas.

Essa reflexão me faz lembrar o poeta Carlos Drummond de Andrade:

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente”.

Assim funciona nosso cérebro, ou pelo menos, assim ele consegue dar algum sentido ao que apreende. Caminhamos dia a dia, e apesar da ilusão de que os sentimentos são eternos ou de que alguns momentos nunca se acabarão, existe o tempo:as datas comemorativas e o aniversário propriamente dito para que se possa acolhê-los e aprender mais sobre o mundo. Dito isso, talvez seja mais fácil entender algumas expressões que os aniversariantes costumam dizer a respeito desse dia: “gostaria de ter esta cabeça de hoje vinte anos atrás”; “sinto-me como um garoto, apesar da idade!”; “os anos pesam sobre os ombros”; “adoro fazer aniversário, este dia é mágico!”; “este dia sempre me lembra...”.  Cá entre nós,todas estas expressões têm embutidas em si à ideia de algo a ser registrado ou mesmo que já se encontra assimilado, portanto inevitavelmente vivido e aprendido, podendo ser rememorado.

Em suma, seja qual for à data a ser comemorada (mesmo que desagradavelmente) só nos resta dizer que “fazer aniversário”,significa guardar experiências, e para isso nosso cérebro tem uma inesgotável capacidade de armazenamento, daí a necessidade de se ter uma idade.  Como dizem os mais velhos: “o tempo é sábio... ensina-nos a viver”.

Para finalizar não poderia deixar de analogamente sugerir que mesmo os aniversários comunitários como, por exemplo, religiosos, de uma cidade, de uma descoberta científica, de um evento, de uma passagem, de uma situação, do ano novo; podem e têm este significado de reflexão na medida em que nos dão a capacidade de assimilarmos que tipo de “colcha de retalhos” estás endo construído coletivamente.
Se algo é vivido e partilhado com alguém, também é preciso comemorar ou refletir socialmente. O corpo faz aniversário, tanto quanto as situações, a família, o casal, os amigos, os inimigos, a comunidade, o país, etc.

Enfim, o tempo nos dá os significados e nos alerta quanto à vivência, portanto, nada como um dia após o outro para se perceber melhor a vida.
Parabéns a você... nessa data querida...muitas felicidades...muitos anos de vida.

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