Pelo seu direito de ser contra a mim, luto sim

Confesso que me assusto, ainda, com o tom de alguns “debates” entre pessoas nas redes sociais virtuais. Um tanto quanto pela agressividade ali colocada, outro tanto pela miopia dos debatedores fazendo com que teimem em não ver o óbvio colocado na discussão (às vezes tenho a impressão de que o sujeito não leu o comentário do outro) e finalmente pela falta de objetivo produtivo, pois, sinceramente, nesse contexto não percebo nenhuma construção conjunta, aprendizado ou troca produtiva entre elas. Os temas têm sido variados, conforme as noticias vinculadas na mídia ou algum fato social divulgado.

Se por um lado parece bacana estarmos manifestando opinião, crítica ou sugestão para o nosso cotidiano, por outro, infelizmente, isso não tem aproximado as pessoas ou melhorado a convivência delas. Outro ponto estranho é que a vontade de brigar, às vezes, parece tão predominante que, ao menor sinal de um terceiro participante se mostrar ponderado ou preferir protelar uma opinião final, é logo “classificado” como “em cima do muro”, “isento” ou qualquer outra coisa que signifique de menos valia por não estar “topando a briga”. Enfim, taí uma potencialização de uma incapacidade humana, saber conversar (alguns diriam saber ouvir). Temos sim, sempre, uma tendência a fazer desse momento uma disputa onde necessariamente tem que haver um vencedor, um certo e um errado, um informado e outro ignorante ou o mais esperto e o “sem noção”. Isso nos faz perder a chance de sermos dois aprendizes sobre o mesmo fato, ou melhor, termos um encontro onde se formam duas novas pessoas.

Mesmo assim, não me canso de valorizar o fato de que as pessoas tem tentado conversar e, de alguma maneira, estão manifestando suas opiniões umas as outras. Digo isso porque também tem aparecido (ou se manifestado mais) um perfil de pessoas que por conta desse contexto agressivo pregam a exclusão de ideias, a censura por si só ou a simples proibição de todas as manifestações que não sejam de uma “maioria”. Aparentemente buscam uma “padronização” de comportamento que nos mantenha numa “zona de conforto”, onde não poderemos ver nossa insensibilidade em tudo aquilo que não conhecemos, não gostamos ou não acreditamos.

Cria-se um ideal de sociedade que sob a égide de alguns “mandamentos”  se pode responder a todas as singularidades e necessidades humanas. Atribuem a uma força externa e suprema (seja divina, ideológica ou política) a definição do que se pode ou não ser e fazer. E nesse caso vários direitos são ignorados, desvalorizados e ridicularizados. Mas, como estamos falando em Redes Sociais e convivência humana, cabe salientar, por ora, a desmoralização que acaba sendo feita com o “direito de falar”. Cá entre nós, esse tal de “politicamente correto” não é só um “porre”, é uma agressão a nossa inteligência, às vezes.

Obviamente que ao defender esse direito, não podemos deixar de associar a responsabilidade pelo que se fala. Sim, meus caros, quem dá “bom dia a cavalo” tem que estar preparado para os coices, afinal nenhuma conduta pode ser verdadeiramente livre se não houver a responsabilidade de seu autor pelas consequências assumidas. Sendo assim, espera-se que havendo qualquer manifestação não se perca a necessidade de sempre respeitar o outro com uma conduta ética (definida aqui como a capacidade de se colocar no lugar desse outro).

Ao pensar nessa questão, confesso que não me sinto somente num posicionamento específico político-cultural diante do nosso contexto social. Ou seja, a meu ver, ele deveria estar em todas as condições de convivência da nossa sociedade. Não o vejo como partidário ou relacionado a uma religião qualquer, é humano e indispensável para minha visão de mundo. Para mim nada, absolutamente nada justifica a privação da liberdade de cidadãos, por exemplo. Portanto seja aonde for e por qual motivo for não compactuo, pois os fins alcançados não justificam os meios utilizados.

Concluindo, em relação aos direitos do homem, entendo que o “direito de ser e de dizer” é, não só o principal na consolidação de uma sociedade, como também o indispensável na construção adequada de qualquer convivência. Portanto toda e qualquer violência contra estes torna-se um processo autodestrutivo de qualquer comunidade. Simples assim!

Ah! Você não concorda?! Acha idealismo ou discurso de minorias?! Tudo bem, por coerência sempre lutarei também pelo seu direito de ser contra mim ou dizer isso. Daí teremos chance de construir algo “novo” juntos. Sem isso destruímos a nós dois, ou perdemos a chance de sermos novas pessoas a partir de um encontro.

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