O Facebook é bom, mas é ruim

Desde que as redes sociais virtuais (como o Facebook) começaram a fazer parte do universo diário das pessoas, vem-se percebendo a potencialização de alguns comportamentos entre as pessoas. Um deles, talvez pelas próprias características da ferramenta, tem especialmente interferido nas relações interpessoais: a oportunidade de manifestar sua opinião sobre todos os assuntos publicamente. Diariamente, na sua “timeline”, você se depara com posicionamentos dos mais diversos sobre vários temas: política, religião, movimentos sociais, futebol, novela, séries de TV, filmes, fatos jornalísticos, etc. Enfim, as noticias voam “nas nuvens” e fazem as pessoas se sentirem “com capacidade e no direito” de serem “psicólogos”, “psiquiatras”, “sociólogos”, “antropólogo”, “técnicos de times”, “líder comunitário”, “jornalista”, etc., comentando (e opinando) sobre tudo e todos (inclusive sua vida pessoal). Alguns até tentam restringir seu círculo de amigos virtuais. Mas sempre existe o amigo do amigo do outro amigo e aí aparece a famosa frase denunciadora nas conversas: “Ah! Eu vi no Facebook” ou “Tá rolando a maior treta nas redes”. Isso sem falar naqueles solitários que não aguentam a perguntinha do face sobre “o que você está pensando?”, e soltam suas pérolas sem nenhum constrangimento. P´ra depois receber suas curtidas e comentários. Cá entre nós, institucionalizamos e potencializamos a fofoca na maior cara de pau.

Cabe dizer que não vejo grandes problemas nessa atitude em si, afinal foi desse jeito que há milhares e milhares de anos A.C. os homens começaram a conhecer mais sobre seus vizinhos, amigos e/ou inimigos. Os aventureiros (ou nômades) caminhavam pelas pradarias e levavam suas impressões sobre o mundo às pequenas tribos agrárias que se “divertiam” nas cavernas ouvindo histórias sobre os habitantes dos lugares longínquos. Isso estimulava as crianças,que, curiosas, mais rapidamente se envolviam e criavam no mundo, os “inventores”, cuja imaginação estimulada pelos contos, recriava a realidade, os lideres que, preocupados com os vizinhos/inimigos distantes, construíam suas estratégias de melhor convivência e proteção do seu grupo, além do aprendizado sobre a adaptação ao ambiente com o aumento do repertório “roubartilhado” nas andanças. Enfim, a divulgação nunca foi um problema para os grupos humanos, pelo contrário, foi com ela que conquistamos o planeta transformando-a na tal “Aldeia Global”.

Sendo assim, e voltando a pensar no Facebook, a meu ver, as redes sociais virtuais não criaram literalmente uma novidade nos comportamentos; apenas potencializaram aqueles que já existiam e/ou tornaram mais explícitos alguns que costumávamos tentar esconder. Continuamos “somente” curiosos com os vizinhos, repassando nossas impressões sobre eles e atrás de histórias/ideias para reinventarmos nossa realidade e/ou nos adaptarmos melhor ao ambiente, roubatilhando e, assim, querendo aumentar nosso repertório.

Por outro lado, arrumamos um enorme problema na medida em que as tais informações são cada vez em maior número e mais rapidamente chegando até nós. Aumentamos exponencialmente as impressões sobre o mundo, mas diminuímos vertiginosamente a possibilidade de elaborá-las. A quantidade e diversidade apreendida comprometem a qualidade e a reflexão dos fatos. Não estamos preparados instintivamente para tantos estímulos e sensibilização, tornou-se estressante ao cérebro e sua capacidade de aprendizado foi prejudicada. As redes sociais virtuais nos colocaram em contato com muita gente numa “caverna”, porém solitários e sem o calor da fogueira e da convivência interpessoal. A diversão está comprometida. Falta cheiro, tato, olho no brilho do outro olhar... Toque... Falta a“flor da pele” que faz milhares e milhares de reações químicas serem iniciadas dentro de cada participante de um encontro real (daqueles em que não existe “tela” entre os envolvidos). Criamos o "quarto macaco" ou seja,  aquele que não enxerga, não ouve e não fala...apenas tecla. 

O Facebook é bom... mas é ruim, como um dia me disse um amigo meu. É bom porque podemos “navegar” longe atrás de impressões sobre as pessoas, histórias e ideias sobre a realidade, roubartilhando repertórios que facilitam a adaptação ao ambiente. As trocas têm quantidade imensurável e em tempo real, portanto não proporciona um aprendizado natural e dentro daquilo que, por ora, estamos preparados. Portanto estressa, daí ser ruim.

Assim sendo, não é tão divertido quanto a um jantar com pessoas onde os cheiros não são tão imensuráveis, mas todos são assimilados; as impressões não são assim tão imensamente diversas, mas mobilizam mais de 120 mil reações químicas internamente em cada participante; não há tanto brilho como nas telas do computador ou celular, mas cada brilho de olhar é único e cheio de mensagens e, ainda por cima, pode haver toque na pele que compartilha sensações, às vezes, indescritíveis. A vida, assim, se faz sentida.

Não acredita?! Pois então imagine esse mesmo jantar á luz de velas e, somente, a dois.

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