Como sair da rotina ou não cair no feitiço do tempo

Quem ainda não viu, eu recomendo, e quem já viu assista de novo, com mais atenção, ao filme “Feitiço do tempo”. A princípio pode parecer somente mais uma comédia romântica e despretensiosa, porém, arriscando uma analogia dela com o nosso cotidiano, suscita reflexões interessantíssimas.Explico: o filme é a descrição de um dia do protagonista (estrelado por Bill Murray), onde o mesmo tenta livrar-se de uma espécie de feitiço que o mantém vivendo este mesmo dia sem parar. Tudo não passa daquela famosa história de acordar, fazer as mesmas coisas, ver as mesmas pessoas, etc.etc.etc. Obviamente não vou contar detalhes e nem o desfecho da trama, pois não quero tirar o possível prazer do espectador em assistir a esta fantasia tentando perceber nela a tendência humana de manutenção de uma mesma rotina de vida.

Pergunto: O que fazer para sair da mesmice do dia-a-dia?  É comum vermos pessoas angustiadas por viverem este tipo de experiência nos relacionamentos amorosos, no trabalho ou no meio familiar. Tudo se repete o tempo todo e não conseguimos perceber o motivo. A vida parece tornar-se chata, repetitiva e sem graça. Enquanto nós permanecemos enfeitiçados pelo tempo.

A psicanálise tem uma teoria para explicar essa história: Freud e seus seguidores atestam que tudo não passa de uma tentativa de resolução de conflitos internos (emocionais) mal elaborados. É como se passássemos os dias repetindo o mesmo filme até esclarecer seu enredo. Chamam a isto de condutas neuróticas ou atitudes de defesa do ego. Falando o português claro, é como praticar um jogo várias vezes e do mesmo jeito até vencermos (que significaria estar satisfeito). O grande problema é que quase nunca temos consciência disso e nem do que realmente queremos, ou seja, nossos desejos insistem em estar sempre disfarçados, escondidos ou longe de nosso alcance. Portanto somos jogadores insistentes e teimosos, porém no escuro.
Os mais onipotentes (vaidosos, quase sempre) ou mais cegos, propriamente dito, costumam, infelizmente, clamar a todos os ventos: “Eu sei exatamente o que quero e não preciso da ajuda de ninguém para saber disto”. Coitados! Esquecem-se da condição humana. Ser humano é ser limitado pela realidade e ser insaciável na imaginação, ou seja, na maioria das vezes aprendendo a partir da frustração.
Partimos para o nosso dia-a-dia buscando prazer, evitando desprazer e reeditando histórias. Encaramos as mudanças sempre com muito receio, ou seja, nos tornamos repetitivos (neuróticos) inevitavelmente.

Daí, como o personagem de Bill Murray, reclamamos de tudo, permanecendo mal humorados na maioria do tempo, enxergando aquilo que nos convém e revivendo cenas na vida. Além disso, insistimos em ver as pessoas como queremos ver e não como elas realmente são. Enfim, como o mito de Édipo nos ensina: com os dois olhos furados e sem enxergar nada somos andantes no mundo à procura de nosso destino (não é à toa que Freud usou esta lenda para explicar nosso maior complexo ou medo, ou seja, o de ser excluído por alguém).

Na verdade, nós complicamos e muito o nosso cotidiano, fazemos dele uma rotina, repetimos as cenas e sempre com as mesmas “queixas” para o outro  ou do sistema que não nos entende, o problema está aí ou ali, mas nunca aqui! Será? Bem, é fato que a noção de tempo é fundamental para assimilação do mundo, precisamos dela para compreender o “andar” das coisas (a Filosofia já nos disse isso). É fato que alguns detalhes dessas cenas da vida são os mesmos, ou seja, o cenário se repete. É fato também que sabemos muito pouco sobre nós mesmos e precisamos do outro para entender tudo isso, portanto, as “coisas” fazem melhor sentido quando compartilhadas com alguém.Não seria mais lógico, então, que tentássemos realmente conviver com as pessoas como elas são, ou seja, vê-las como se apresentam, atualizando os conceitos a cada instante, evitando as ideias pré-concebidas e corajosamente nos dispondo a trocar impressões originais nas relações interpessoais?

Não sou utópico e nem quero ser, portanto, logicamente sei das limitações em se fazer isto. Mas, lembrando-se do filme, “Feitiço do tempo”, gostaria de sugerir que a saída para a rotina pode estar exatamente na sensação de ansiedade que ela traz desse estado de angústia por querer algo novo das coisas e na inevitável percepção de que é o relacionamento com outra pessoa que nos dá a criatividade para a satisfação na vida. Pode crer! Nossa maior chance está na complexidade de conviver com outra pessoa. E aí, dor e delícia; medo e desejo permanecem bem próximos em cada um de nós.
Devemos admitir que relacionar-se com outro ser humano é quase tão difícil como subir o pico Everest sem nenhum instrumento ou ferramenta. Porém a tentativa de fazê-lo nos dá a sensação, sempre, de olhar as coisas num nível acima, e cada passo a frente nos dá um prazer enorme.
É mágico, se não for trágico... Mas é sempre fascinante.

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