A arte sempre incomoda... senão, não é arte.

O que é arte, ou pode ser considerado como manifestação artística? Essa pergunta costuma gerar polêmicas, debates ideológicos (ás vezes político-partidários) e discussões acaloradas que, a meu ver, afastam a possibilidade de uma compreensão mais clara desse fenômeno essencialmente humano. O curioso é que mesmo alguns artistas também assumem posturas preconceituosas e/ou agressivas por não concordarem com a proposta realizada pelo “colega” de atividade. Ou seja, mesmo sendo um “executor de arte”, percebe-se ser da condição humana lidar com este fenômeno de forma passional. Sim, os afetos (ou afetividade) tem a capacidade de comprometer (e/ou interferir sobre) todas as outras funções psíquicas (consciência, pensamento, memória, sensopercepção, vontade, etc.). Sendo assim é possível haver atitudes e ações descabidas por conta de um emocional intenso presente comprometendo o discernimento da situação. Refletindo sobre o conceito literal do fenômeno, talvez fique mais fácil compreender os argumentos aqui colocados: “a arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente”.

Outro fato fundamental (esse aprendi com um amigo poeta), é que a manifestação artística sempre precisa de, pelo menos, dois envolvidos (o executor com sua obra e o expectador) que, segundo este “mestre poeta”, no momento do encontro tornam-se ambos artistas. Saliente-se que a obra nem sempre agrada, aliás, pode-se até “desgostar”, mas ela sempre incomoda (ou seja, imprime emoções). Nesse sentido, pode-se dizer que o artista é um visionário, nem sempre aderido há seu tempo ou cultura, ou melhor, esse sujeito tem a capacidade de nos fazer sair do rumo (ou do “prumo”) e propor “novos” conceitos e sensações sobre a vida. Portanto, a arte nos dá chances de reinvenções da realidade, mesmo que isso signifique nos mostrar, às vezes com algum desconforto, o quanto ela (a realidade) é “cruel” na sua maneira de se impor (ou nos limitar o prazer).

Considerando esse contexto, fica-me claro que para a arte não cabe à censura ou a opressão, pois para ela, sempre, é preciso ser e estar livre em sua manifestação, pois só assim se estabelece enquanto arte. Por outro lado, também entendo que cada sujeito deve ser autônomo para escolher seus caminhos, vivências, encontros e desencontros. Ninguém tem o direito de se impor sobre o outro, nem o artista. Nesse sentido cabe sempre o cuidado de dar ao expectador a oportunidade de não participar desse encontro: seja trocando o canal de TV, não indo ao cinema ou teatro, desligando o rádio, saindo da sala do museu ou de exposições, etc., enfim,  respeitando as limitações do expectador em “vivenciar” a proposta estética.  Se não gosta, cabe, simplesmente, a “fuga” desse encontro “artístico” e posterior procura do seu. Afinal, todos têm direito a ela (a arte).

 

Concluindo, e a título de exemplo, quando tive a oportunidade de conhecer a proposta do fotografo cubano Erik Ravelo, intitulada “Os intocáveis”, pelo Facebook (via Leandro Oliveira), fiquei bastante sensibilizado: “a primeira imagem refere-se à pedofilia no vaticano. A segunda ao abuso sexual infantil no turismo na Tailândia, e a terceira refere-se à guerra na Síria. A quarta imagem refere-se ao tráfico de órgãos no mercado negro, onde a maioria das vítimas são crianças de países pobres; a quinta refere-se ao armamento livre nos EUA. E por fim, a sexta imagem refere-se à obesidade, culpando as grandes empresas de fast food. São fotografias de crianças crucificadas em seus supostos opressores, cada um por um motivo diferente e uma mensagem clara, que visa reafirmar o direito da criança de ser protegida e relatando o abuso sofrido por elas principalmente em países como: Brasil, Síria, Tailândia, Estados Unidos e Japão”. As fotos me incomodaram, o coração bateu emocionado (e não foram por emoções agradáveis), o pensamento viajou longe buscando a compreensão dos fatos e das condições impostas ás crianças. Portanto, não tenho dúvidas de que estas são obras de arte transgredindo minha “zona de conforto” no cotidiano e, artisticamente, me fazendo crescer, (re) descobrindo nossa condição humana. 

  • © 2018, Designed by Indev Web.