Viver pelo outro não é saudável... é fugir de si mesmo


Em outro artigo (Vinculo afetivo – quando no tornamos humanos) procurei esclarecer o processo de construção dos primeiros relacionamentos interpessoais (desde nossa infância) e sua importância para o amadurecimento e aquisição de características humanas nas pessoas. É nesse processo que “criamos e consolidamos a chamada autoestima (ou amor próprio) com a qual podemos aprender a valorizar e gostar de si mesmo e assim poder também gostar e valorizar o outro”.

Por outro lado, existem algumas situações e/ou pessoas que se dedicam de tal maneira ao outro que, com o passar dos tempos, esta “autoestima” fica comprometida gerando descuido e desvalorização de si mesmo. Saliente-se que não estamos falando aqui daqueles relacionamentos onde uma dependência extrema gera uma convivência abusiva e destrutiva, tema abordado no artigo (“Relacionamento abusivo – da devoção a devoração do outro”), mas sim daquelas pessoas que buscam (a todo o momento e custo) o bem estar do outro. Por exemplo, algumas mães que se dedicam “visceralmente” ao bem estar dos filhos ou alguns pais que comprometem totalmente seus projetos de vida pela construção dos sonhos dos filhos. Será isso sempre saudável aos dois? Qual o preço a se pagar? E quem paga?

É óbvio que quando há uma dependência real e objetiva, esta dedicação é indispensável, por exemplo, pelas crianças nos primeiros anos de vida. Mas é preciso sempre ter em mente que também faz parte do amadurecimento dos pequenos, bem como de sua educação para estar no mundo, conviver com as necessidades, as faltas e/ou algumas frustrações. É assim que potencializamos a criatividade e a capacidade deste “filhote” de se (re) inventar perante as inevitáveis limitações do cotidiano.

Não é fazer o outro sofrer, é fazê-lo crescer e se tornar mais “forte” a partir desse sofrimento. Não é sadismo, é amor real e solidário ás dificuldades da vida.  Impor limites, proporcionar frustrações e/ou deixar de realizar alguns sonhos também são formas de acreditar que o outro pode tornar-se melhor e mais forte perante a vida. É ter a crença de que ele (o outro) pode viver sem você. E cá entre nós, deve e pode mesmo, pois a proteção excessiva não deixa de ser uma maneira de disfarçar enorme rejeição que sente pelas falhas (algumas inevitáveis) de quem você convive.

Mas o fato é que algumas pessoas se dedicam demasiadamente, comprometem seus sonhos e desejos e, ás vezes, se vangloriam, por dizerem que “fazem tudo pelo outro”. Inicialmente até parecem se realizar com as conquistas de outrem. Demonstram certa satisfação e alegria pelo sucesso alheio (mesmo que isso custe um enorme fracasso em si mesmo). Ate ai, não se importa com seu próprio cotidiano, pois, seu prazer está projetado somente fora de si.

Doce engano, pois, há uma máxima da condição humana; sempre buscamos a satisfação própria e evitamos a insatisfação. Eis uma consequente controvérsia inevitável: como é possível satisfazer-se somente através do outro que tem suas próprias necessidades, que são sempre únicas em cada um? Ou seja, haverá um momento em que o “mundo” se torna pessoal e intransferível em sua capacidade de realizações. Os sonhos são sempre singulares.

O pior ainda está por vir, pois, em minha prática clínica, conheci várias pessoas que em seus discursos posteriores me diziam “mas eu fiz tudo por ele, até abri mão de mim mesmo”. Nesse momento sempre me veio à pergunta: e ele pediu isso? Quando se faz algo por alguém é bom fazer, em primeiro lugar, porque é bom pra si mesmo estar fazendo aquilo, sabendo que o outro não pediu e não tem o dever de devolver nada. A oferta deve ser espontânea e o custo é somente seu. Que me desculpem os desatentos ou românticos, mas a generosidade deve ser sempre, em primeiro lugar, consigo mesmo. Não é egoismo (como alguns interpretam), é responsabildiade no cuidado consigo mesmo para que consequentemente possa buscar a eficiência no cuidado ao outro. 

Sendo assim viver somente pelo outro não é saudável pra nenhum dos envolvidos, pois quem se oferece dessa forma foge de sua vida, seus sonhos e desejos. Por outro lado, quem também recebe assim costuma ser “protegido” e, posteriormente, acaba por não aprender a construir adequadamente seus desejos e sonhos, pela falta da necessidade criativa imposta por essa mesma vida, porém negligenciada pelo “aparente” protetor, que, na verdade , comprometeu seu amadurecimento. 

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