Vínculo afetivo – quando nos tornamos humanos


Quando dizemos que a vida só faz sentido através do outro, algumas pessoas veem exagero na afirmação e tentam pontuar algum viés filosófico tentando valorizar o indivíduo por si só. Por outro lado, se pensarmos na gênese do fenômeno do estabelecimento de vínculos afetivos, a meu ver, torna-se claro que essa conclusão é inevitável.  Todo indivíduo só pode se humanizar relacionando-se com outra pessoa, sem esta ligação não há formação de psiquismo adequado.  Cabe salientar que estamos falando de uma relação especialmente norteada por emoções, sentimentos, impressões e movimentos internos que alteram sensivelmente os envolvidos, que não conseguem permanecer indiferentes um ao outro. Todo vinculo é uma relação, mas nem toda relação é um vínculo afetivo. A saber, quando há vínculo, não há indiferença afetiva, estabelece-se uma “energia” (independente de ser agradável ou desagradável) que mobiliza os envolvidos tornando-os, necessariamente, diferentes após cada novo encontro. Mas como acontece e/ou quando se inicia esse processo no ser humano?

Após nove meses no verdadeiro paraíso (onde não havia fome, sede, calor ou frio, ou seja, não haviam necessidades) o bebê deixa o conforto do útero da mãe e nasce para o mundo. Corta-se um cordão umbilical e força o “novo ser” a buscar autonomia. Feita a separação física, o bebê vai precisar, de alguma forma, ganhar novamente seu aconchego e equilíbrio. Imediatamente recebe muitos estímulos (ar, som, frio, luz, fome) e ele vai precisar de um elo vital para sobreviver seu primeiro vínculo afetivo – sua mãe (ou cuidadora). E assim gradativamente pelos próximos doze meses (mais ou menos) o pequeno filhote vai-se diferenciando, aprendendo e assimilando o mundo, frustrando-se pela realidade, e em seguida buscando a satisfação através dos vínculos que lhe são oferecidos (obviamente que “mamãe” continua sendo o especial, portanto o modelo fundamental).  Ao conseguir andar e se manifestar pela fala, explorando cada vez mais o mundo (sempre pelos vínculos), tornar-se gente, modificando e sendo modificado pelo seu cotidiano a partir das impressões que cria (ou é influenciado) no meio ambiente. Cabe salientar que os primeiros modelos de vínculo costumam ser mais assimilados e até “decorados” (principalmente aqueles feitos com os cuidadores mais presentes na infância). Daí pode-se compreender a tendência humana em repetir modelos de relacionamentos, apesar de tantas possibilidades de encontros diferentes no cotidiano.

  Podemos dizer que, no frigir dos ovos, os vínculos afetivos são formas e maneiras como cada um de nós acaba se apresentando ao mundo ou dele tenta retirar satisfações ou respostas. Estes vínculos estão para nossa saúde mental como o alimento está para a saúde física. Com eles aprendemos a identificar sentimentos, emoções e afetos que nos mantém atuando no mundo e dele recebendo influências. Através deles que criamos e consolidamos a chamada autoestima (ou amor próprio) com a qual podemos aprender a valorizar e gostar de si mesmo e assim poder gostar e valorizar o outro. Qualquer individuo que por algum motivo tenha dificuldades em estabelecer vínculos com as pessoas compromete sua saúde mental, bem como a possibilidade de, através deles, buscar a resolução de traumas, defeitos, equívocos na maneira de ver, perceber, sentir e elaborar o mundo. Por exemplo, em alguns transtornos de personalidade que apresentam tais características (sobre esse tema sugiro a leitura de dois outros artigos: “Sociopatia – a incapacidade de seguir as normas sociais” e “Borderline: a instabilidade emocional extrema”).  

Os vínculos afetivos formam sujeitos, criam pessoas e consolida-nos naquilo que se chama “ser gente”, ou melhor, o ser humano em sua essência. 

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