A velha opinião formada sobre o novo


É comum acharmos por aí pessoas reclamando que nada dá certo em suas vidas ou que as coisas não são exatamente como elas gostariam que fossem.  Na verdade, há uma máxima sobre nós, seres humanos: estamos acostumamos a estar sempre insatisfeitos e/ou desejar mais. Cá entre nós, essa é a realidade da nossa condição, ou seja, a incompletude. Ser humano é ser e estar incompleto diante das possibilidades de satisfação oferecidas pelo mundo. Isto porque, ao estabelecermos um valor pessoal para as coisas do mundo, seja um simples objeto, uma vivência, uma situação ou mesmo um sentimento por alguém, nos tornamos únicos e “vorazes” pela satisfação plena.  Por exemplo, só o homem vê diferença por ser alimentado pelo “prato” da mamãe, morar nessa ou naquela casa ou no sujeito tal que lhe faz algo, como o fulano ou beltrano, apesar destes estarem, a princípio, com as mesmas atitudes. Enfim, a vida é percebida de uma maneira singular e própria para cada um.

 É também curioso observar como essas pessoas são repetitivas ou agem de forma recorrente no cotidiano. Elas buscam os mesmos objetos, maneiras de lidar, se relacionar e/ou de conviver, respondem ás exigências do meio ambiente sempre da mesma forma e reclamam das mesmas carências.  Um exemplo é a invenção do divórcio, que deu ao indivíduo a oportunidade de se casar várias vezes,  e mesmo assim, fazem desta “meia dúzia” de matrimônios um único tipo de casamento. Este padrão se repete também com amigos, colegas de trabalho, vizinhos, ou seja, com os relacionamentos interpessoais, que em geral são todos iguais e/ou bastante parecidos. Olhando bem de pertinho, tudo lembra uma recorrente forma de viver uma situação, até quando lidam com algumas conquistas ou frustrações, o comportamento se repete. Nesse  caso, apesar da infinita possibilidade humana de (con) viver, parece que após adotarmos um certo estilo, não conseguimos mais sair dele e aí, repetimos, revivemos e reproduzimos novamente ações, sentimentos, julgamentos, comportamentos etc.

Em nossa cultura, a teoria psicanalítica é uma das melhores formas e/ou aquela que melhor traduz e esclarece a armadilha criada por nós e que nos mantém “aprisionados”.  O fato é que os  modelos de (con) vivência, que aprendemos na infância, são assimilados como maneiras/regras absolutas e verdadeiras. Assim acreditamos (ou somos forçados a acreditar) serem eles os mais eficazes e até os únicos capazes de nos fazer alcançar a satisfação tão desejada e/ou necessária.
Nosso passado se torna o grande “oráculo” e/ou aquele que pode esclarecer todas as nossas dúvidas e oferecer as possibilidades de sucesso, com isto reforçado, o presente perde sua capacidade de nos ensinar a estar no mundo.

Concluindo, temos inevitavelmente a tendência de sermos repetitivos, conforme a psicanálise denuncia. Entendo que uma boa saída é prestarmos atenção para descobrir onde estamos repetindo essas estratégias/modelos para inadvertidamente lidar com a nossa realidade, pois, em seu “canto de sereia”, estes comportamentos repetitivos nos mantém cegos e surdos quanto à potencialidade de (re) inventarmos novos caminhos de satisfação, novas atitudes e conhecer novos pontos de vista sobre velhos conceitos. Cá entre nós, se o mundo lhe parece chato e sem graça, talvez a sua estratégia em lidar com ele é que esteja ultrapassada ou necessitando de pequenos ajustes e atualizações.  Tome cuidado para não cair na armadilha “musicada” pelo cantor e compositor Raul Seixas: “(...) ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

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