Transtorno de controle dos impulsos: quando não se tem domínio sobre as atitudes


Que não temos total governo sobre nossas ações, a psicanálise já nos comprovou e nos ensinou. Mesmo assim, é possível reprimir um desejo ou optar por não realiza-lo num dado momento ou nas condições apresentadas.  Apesar das “forças” inconscientes que nos movem, desde que tenhamos conhecimento delas e suas motivações, existe sim o livre arbítrio da escolha do que se pode ou não efetivamente fazer. Paga-se um preço psíquico por isso, obviamente, mas não podemos esquecer que somos sempre aquilo que fazemos de nós mesmos. Algumas pessoas, em algumas situações, tomam atitudes, seja sobre si mesmo ou nos outros sem nenhum controle, às vezes sentem-se satisfeitas inicialmente por realizá-las e depois geralmente sofrem por um arrependimento intenso. Posteriormente podem repetir a mesma ação e satisfazer-se com ela e novamente virá o arrependimento (e de forma sincera, diga-se de passagem). Como e porque essas atitudes acontecem?

Antes de explicá-las, é preciso esclarecer uma confusão que se faz entre ato compulsivo (compulsão) e ato impulsivo (impulsividade); são fenômenos diferentes.  A impulsividade é como um curto-circuito do ato voluntário, a pessoa age sem ponderar no que fez. Há uma tensão interna enorme que pede descarga (ou satisfação), incontrolavelmente há uma “explosão” e realização de um desejo através de uma ação, prazer imediato. Na compulsão o sujeito reconhece a ação como indesejável e inadequada e tenta refreá-lo ou adiá-la. Há uma certa sensação de “alívio” ao realizar o ato, mas este logo é substituído pelo retorno do desconforto subjetivo e pela urgência em realizar novamente  a mesma ação, portanto, não há prazer.

Geralmente estas atitudes compulsivas estão associadas à ideias obsessivas (aquelas que invadem nossa mente e não saem) e são muito desagradáveis que são tentativas de neutralizar tais pensamentos.  Por exemplo, por se sentir impuras e sujas, algumas pessoas tem compulsão por limpeza. Para melhor compreensão desse processo sugiro a leitura do artigo “O que é transtorno obsessivo-compulsivo (T.O.C.)?”.  Antes de o profissional assistente diagnosticar uma atitude como “compulsão” ou “descontrole de impulso”, é preciso compreender sua dinâmica, sendo fundamental na eficácia da proposta terapêutica a ser sugerida ao portador do transtorno.

Com relação aos transtornos do controle dos impulsos podemos dizer que seus portadores:

1. São indivíduos que não conseguem resistir a um impulso ou tentação para executar alguma ação prejudicial a si mesmo ou a outros. Eles podem ou não resistir conscientemente e podem planejar ou não o ato.

2. Antes de cometerem a ação, experimentam um senso aumentado de tensão e excitação.

3.  Enquanto cometem o ato eles sentem prazer, gratificação ou liberação, está de acordo com os desejos conscientes imediatos do portador.

4. Imediatamente após o ato, os pacientes podem ou não sentir um genuíno arrependimento, auto reprovação ou culpa.

Existem seis categorias mais freqüentes desse tipo de transtorno: explosivo intermitente, cleptomania, piromania, jogo patológico, tricotilomania, além dos que não reúnem os critérios para um impulso específico, também chamados de residuais ( compras, dependência por vídeo games, uso do celular, comportamento sexual, automutilação repetitiva, etc.).

Todas elas têm as características anteriormente citadas e cada uma tem sua atitude especifica de descarga: o “explosivo intermitente” tem ações agressivas resultando em sérios ataques ou depredação do patrimônio, o grau de agressividade é desproporcional ao fator estressante, dura de minutos a horas com remissão espontânea e rápida; a “cleptomania” é um fracasso recorrente em resistir a impulsos de furtar objetos desnecessários para uso pessoal ou valor monetário, o furto não é planejado nem envolve outrem, nem sempre consideram a possibilidade de serem apanhados, mesmo que tenham sido humilhados por repetidos flagrantes; a“piromania” é a provocação intencional de incêndio em mais de uma ocasião, fascinação, interesse, curiosidade ou atração por fogos ou atividades e equipamentos associados com o combate a incêndios; o “jogo patológico” é um comportamento de jogo mal adaptativo, persistente e recorrente, com intensa preocupação em jogar, necessidade de apostar quantias crescentes para atingir a excitação desejada, esforços repetidos e mal sucedidos de se controlar, reduzir ou parar de jogar, comprometimento ou perda de relacionamentos pessoais, ocupacionais em virtude do jogo; a “tricotilomania” é o fracasso recorrente em resistir ao impulso de arrancar os próprios cabelos ou pelos em geral, pode vir acompanhado da tricotilofagia que seria o impulso recorrente de, também,comer os cabelos. Todas elas trazem prazer e gratificação inicial ao realizar as ações. Saliente-se que em nenhum caso pode haver, concomitantemente, outro transtorno que justifique o quadro, por exemplo, problemas clínicos gerais, esquizofrenia, retardo mental, problemas neurológicos ou transtorno de personalidade.

 Cabe dizer que estes transtornos podem ser tratados geralmente com a associação da abordagem medicamentosa e a ajuda psicológica. A terapia cognitivo comportamental tem sido utilizada com sucesso nestes quadros. Enfim, a avaliação especializada (psiquiátrica e psicológica) torna-se fundamental sempre que nos deparamos com pessoas com atitudes “repetitivas” ou dificuldades em se livrar delas.

Sendo estas acometidas por transtornos do controle de impulsos, há um comprometimento psicopatológico da vontade presente, ou seja, não é uma ação deliberada com objetivos ilícitos. Portanto, seus portadores merecem ajuda profissional.

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