Sociopatia: a incapacidade para as normas sociais


Algumas pessoas, infelizmente, tem uma capacidade enorme e recorrente de fazer o outro sofrer. Apresentam comportamentos que indicam sua incapacidade em seguir as regras e/ou infringem todas as normas da convivência social adequada. Não são necessariamente criminosos e/ou estão na criminalidade, mas, obviamente é comum encontrarmos tais sujeitos na população carcerária (alguns estudos falam em 75% desse grupo). São os chamados sociopatas. Nos tratados de psiquiatria são definidos vários tipos de personalidades psicopáticas, sendo o tipo aqui abordado definido como transtorno de personalidade psicopática antissocial ou dissocial.

Tais indivíduos são manipuladores e não medem esforços para conseguir satisfazer seus desejos, sendo assim costumam criar situações e/ou explorar outras pessoas de forma a produzir histórias constrangedoras que o cinema, por exemplo, dramatizou em várias oportunidades (“Laranja mecânica”, ‘O silencio dos inocentes”, “Dormindo com inimigo”, etc.). Ou seja, “encenam” o papel de vilão como maestria. Por outro lado, cabe salientar que estes se apresentam de maneira normal e comum e não seria exagero afirmar que convivemos diariamente com tais personalidades. Nesse sentido, ressalta-se que a prevalência do transtorno é de 3% entre os homens e 1% entre as mulheres.

Não é fácil fazer tal diagnóstico e exige experiência clínica e capacidade de percepção apurada do funcionamento psíquico do entrevistado. Os portadores podem mostrar-se altivos e dignos de credibilidade, com posturas educadas, sedutoras e, numa primeira impressão, sem nenhum sinal de tensão, hostilidade ou agressividade. Às vezes é preciso entrevistas provocadoras de estresse, nas quais confrontamos vigorosamente as inconsistências em sua história. As ações podem surgir antes dos 15 anos, ou mesmo na pré-puberdade, com vários indícios de problemas no âmbito escolar, familiar e social. Porém, a rigor, devemos classificar inicialmente estas atitudes como transtorno de conduta, a personalidade se consolida integralmente no início da vida adulta, portanto somente nesse contexto (totalmente consolidada) que poderíamos pontuar um transtorno propriamente dito. Além disso, uma investigação diagnóstica completa deve incluir avaliação eletroencefálica (onde aparecem os chamados danos cerebrais mínimos) e um psicodiagnóstico bem feito (através de testes psicológicos).

Estas pessoas apresentam-se geralmente de forma agradável e cativante, mas em sua história de vida revelam-se muitas áreas de funcionamento desordenado: mentiras frequentes, faltas á escola, fugas de casa, furtos, brigas, abuso de drogas e atividade ilegais desde a infância. Na vida adulta é comum a falta de compromisso com as pessoas, atitudes que sugerem exploração do outro, manipulação com evidentes tentativas de levar vantagem, histórias fantasiosas e mentiras desnecessárias. Também podem se mostrar muito inteligentes e perspicazes e há uma explicação psicodinâmica para isso: tais pessoas não possuem o que chamamos de sentimentos superiores (honra, dever, culpa, pudor, honestidade, generosidade, etc.), ou seja, aqueles que adquirimos com a nossa história de vida. Sendo assim, para obter o que querem podem colocar toda sua inteligência ao dispor dos objetivos pretendidos, enquanto as outras pessoas não conseguem ter algumas atitudes (ou traçar planos) por vergonha, pudor, culpa etc. Além disso, o sociopata demonstra ausência de ansiedade que pode parecer grosseiramente incongruente com as situações vivenciadas.

Uma vez estabelecido o transtorno de personalidade, seu curso é irreversível e irremitente, sendo o auge do comportamento no final da adolescência e inicio da vida adulta. O prognóstico é bastante variável, e existem relatos de diminuição dos sintomas com o avanço da idade. Em relação ao tratamento a resposta não costuma ser muito satisfatória, pode haver alguma chance se inicialmente for estabelecido um contrato terapêutico bem definido e com limites claros. A psicoterapia somente é possível quando o portador está imobilizado (por exemplo, hospitalizado) e ai torna-se suscetível ao procedimento. Geralmente os sociopatas costumam se motivar quando estão entre seus pares, e se propõem a mudanças. Talvez por isso os grupos de auxílio mútuo sejam mais úteis do que as penitenciárias, no alívio das consequências do transtorno. O uso de medicações pode ser usado para alivio de sintomas incapacitantes como aflição momentânea, raiva e depressão. Por outro lado, uma vez que estes portadores geralmente abusam de substâncias, este uso deve ser criteriosamente feito.

Na prática clinica lidar com estas pessoas é um desafio desgastante e não muito satisfatório, onde a sensação de impotência, a meu ver, fica bem evidente e frustrante ao profissional, quiçá aos familiares.  Torna-se fundamental que os pais (e cuidadores) procurem estabelecer limites muito claros e rigorosos às crianças com transtornos destas condutas, pois , sinceramente falando, é melhor evitar e prevenir, pois, uma vez estabelecido o transtorno de personalidade, o sofrimento será enorme. E não será do portador , mas dos que convivem com o mesmo ou ao seu redor.

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