Sobre o cuidado ao idoso


Estudos epidemiológicos e demográficos mais atuais deixam claro haver uma tendência mundial ao envelhecimento das populações. Portanto, o respeito às singularidades desse momento de vida torna-se imprescindível a todos nós. A questão é: estamos nos preparando para a velhice? Ou, outra questão ainda mais importante a se refletir seria: estamos cuidando adequadamente de quem já está idoso?

A medicina tem avançado cada vez mais quanto aos recursos, possibilidades e tratamentos que podem prolongar a vida. Obviamente que, em consequência disso, o idoso se vê obrigado a tomar cada vez mais pílulas buscando amenizar ou adequar-se as alterações fisiológicas decorrentes desse processo de envelhecimento físico. Até ai não vejo problemas, pois, entendo que ter saúde não significa necessariamente não ter doença. O idoso pode ser diabético e hipertenso, por exemplo, mas ser saudável na medida em que recebe todos os cuidados necessários para uma qualidade de vida adequada. Aqui vejo problemas e equívocos cometidos que merecem reflexão e mudanças de posturas dos cuidadores e familiares desses idosos.

A começar que questiono a tendência social vigente de se chamar os programas ou propostas a essa população como “projetos para a melhor idade”. Entendo que “melhor idade” não existe e sim momentos de vida que com suas singularidades e características próprias trazem possibilidades de aprendizado e satisfação, aliás, todos eles. Portanto, cabe a pergunta: se há uma melhor idade, qual seria a pior? Saliente-se que é preciso tomar cuidado com alguns adjetivos, pois estes podem disfarçar um preconceito ou ignorância do que realmente significa o substantivo que vem depois.

Além disso, ser idoso significa, acima de qualquer coisa, ter mais vida, mais experiências, mais conhecimento e não ser “velho” no sentido de descartável. A meu ver, há uma supervalorização do que é novo e um descuido de tudo aquilo que veio antes ou foi necessário para que se tenha esse novo. Infelizmente, percebo essa máxima em todos os sentidos, hoje em dia. Daí, o jovem me parece supervalorizado e o idoso descartado.

Por ser descartável, esse idoso costuma ser submetido a condições de vida impostas, e sem direito de negociação ou autonomia sobre si mesmo, a começar por onde, com quem e como morar. Em nome da tal proteção, costuma-se propor um cotidiano a esse idoso que não apresenta requisitos mínimos a sua satisfação. Ás vezes infantilizando-o, outras desconsiderando seus hábitos anteriores ou até por simplesmente ser “mais cômodo” aos familiares.

Todo cuidado tem que ser um ato de zelo, de negociação, de compaixão e de respeito às singularidades do outro. Sendo assim, acreditem, ás vezes, até mesmo não fazer pelo outro pode ser um ato de amor.

Não é porque uma pessoa tem mais idade com consequentes limitações físicas, por exemplo, na condução do seu cotidiano, que devemos substitui-la ou fazer-lhe tudo que for possível ou necessário em relação as suas atividades diárias. Estimular sua autonomia e capacidade criativa de adaptar-se a essa nova condição de ser é fundamental para sua melhor qualidade de vida.

 

 

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