Quem não se comunica, se trumbica.


“Quem não se comunica, se trumbica”... já dizia o Velho Guerreiro no auge do seu humor popular. Logo ele que, no “caldeirão” de seu programa semanal, alegrava “gregos e troianos”, tendo como único objetivo “tirar sarro” de todos nós na maior cara de pau.

Chacrinha era assim: brega, chique, meio tropicália, meio Cult, mas acima de tudo um tremendo comunicador que fazia de seu palco um lugar mágico onde todos queriam estar, de Roberto Carlos a Sidney Magal, independentemente de estilo (nem que fosse pra ganhar um abacaxi e uma bela buzinada na orelha). E assim levava todos do seu jeito, que  o aceitavam, mesmo quando tomava atitudes esdrúxulas como, literalmente, jogar bacalhau na platéia.

Um artista que, com sua arte subversiva, nos mostrou uma possibilidade de interação social e de como se comunicar. Como? Por quê?

É preciso compreender a importância desse fenômeno em nosso convívio social, extremamente complexo, com várias vertentes possíveis, teorias e estudos, além de diversas abordagens acadêmicas e disciplinas a serem visitadas. Mas, considerando o espaço aqui disponível e, também, para facilitar essa compreensão vou me ater ao fenômeno restrito entre duas ou mais pessoas no sentido da troca de informações e convivência empática.

O ser humano vê, ouve, fala, cheira, degusta e passa a mão em busca de sensações que lhe causem alguma impressão, ele obtém símbolos próprios e percebe o mundo, da sensação à percepção recria (internamente) seu próprio ambiente.  Em um encontro entre duas pessoas, essa recriação se torna intensa e envolve inúmeras impressões e “novos” significados assimilados.

Nessa oportunidade, quer queiram ou não, elas se percebem e são transformadas internamente. Em qualquer encontro é imensurável a quantidade de alterações químicas, físicas, biológicas, emocionais e culturais que dois sujeitos se proporcionam. Alguns estudiosos falam em mais de 150 mil reações bioquímicas diferentes que acontecem numa única comunicação.

Dois cérebros se abraçando numa erupção, quase vulcânica, de informações.

 Cada um de nós tem seus signos, significados, conceitos e preconceitos estabelecidos prontos a serem usados a cada novo encontro ofertado pela vida. Não há como ser diferente. Por mais que as sensações nos sejam impressas originalmente, a percepção sempre estará submetida ao nosso cérebro condicionado por nossa história de vida. Aprendemos e assimilamos sobre o mundo.

Cá entre nós, já podemos intuir as armadilhas inevitáveis a que somos submetidos quando acreditamos que estamos nos comunicando com alguém, não é mesmo?!

Cabe aqui a pergunta que não deve se calar: estaria me comunicando com o outro ou com quem eu imagino ser esse outro?

Iludidos, no frigir dos ovos, caminhamos por ai no dia-a-dia com a convicção de que percebemos as pessoas na sua real maneira de ser. Desde que ela não confirme?! Eu duvido.

Não se preocupe, é possível essa caminhada. Se não como haveria a convivência social? É preciso admitir que, nos encontros, a bagunça de sensações existe e causa incomodo a todo instante. As trocas são mágicas, mas também são muito diversificadas trazendo impressões nem sempre fáceis de compreender. Quase sempre como um “programa do Chacrinha”: muito colorido, várias informações ao mesmo tempo,bagunçado, tendo de tudo um pouco ou quase nada, algumas “coisas” até bastante esdrúxulas. Mas, acontecem...

Portanto, vale salientarmos esse programa desorganizadamente interessante, porém não menos comunicativo, se quisermos refletir sobre nossos encontros interpessoais onde nos “iludimos”, mas nos transformamos.Penso comigo que, se acolhêssemos o fenômeno da comunicação nessa sua forma própria de ser e acontecer, teríamos mais êxito na percepção adequada de nossas parcerias. Bastaria não desconsiderar suas características, possibilidades de equívocos ou o estilo de cada um.

Adotando a capacidade de improvisação e adequação a essas“novas propostas” no palco mágico da vida, como bem fazia o Chacrinha em seu programa, grandes seriam nossas chances de boa audiência e sucesso.

E se mantivermos o bom humor do Velho Guerreiro... Aquele abraço á vida.

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