Que me perdoem uns românticos e uns irresponsáveis, mas a doença mental existe


Excepcionalmente o ser humano pode perder seu juízo, fugir da realidade sem volta, e, de maneira tal que não produza ou (re) crie-se enquanto gente. Que me perdoem uns  românticos e uns irresponsáveis, mas a doença mental existe. Como também existem as pessoas talentosas e artísticas que conseguem transformar qualquer coisa em obra de arte e que para alguns parece loucura. Van Gogh não era um brilhante louco entristecido... Era um artista brilhante que em alguns momentos esteve louco e deprimido. O profeta Gentileza não era um criativo e louco andarilho... Era um sensível e magnífico “grafiteiro” que se tornou esquizofrênico e morador de rua.

Infelizmente, algumas pessoas confundem atitudes singulares e humanas com atos de loucura. E daí, sejam profissionais de saúde ou leigos, não contribuem para uma adequada apreensão das reais motivações dessas ações. Ainda por cima, e por ideologia míope ou radical, dificultam um acolhimento pertinente desses comportamentos onde seus autores possam ser confortados, compreendidos, cuidados e respeitados socialmente como merecem. Pelo contrário, os loucos são vistos como incompetentes ou de menos valor. Mais uma vez coube ao cinema nos constranger, denunciando a maneira como lidamos e nos comportamos diante desse fenômeno – a loucura.

Vários são os filmes que retratam esse assunto, mas cabe comentar aqui uma bela produção cinematográfica brasileira: Bicho de Sete CabeçasEssa obra de arte nos mostra, de forma nua e crua, até onde pode chegar à incompreensão de um homem por não manter-se atento às questões do seu cotidiano: o jovem Neto é violentamente internado num hospital psiquiátrico pelo próprio pai que não compreende sua rebeldia adolescente; sua mãe, uma passiva e inoperante mulher, acaba mergulhando nos calmantes para fugir de suas responsabilidades com o filho. A irmã, uma alienada e equivocada moça, diante de pessoas em sofrimento que caminham no jardim do hospital, só consegue ver a si mesma e imaginar-se relaxada pelas flores do lugar. Assim sendo, aos poucos, durante o filme, assistimos a desumanização de uma pessoa – Neto – que ao final se afoga na própria angústia e desiste da vida. A última imagem/cena do filme é um pai, sentado numa calçada, chorando copiosamente ao lado de um bonito jovem sem expressão, sem luz e sem vida – um louco.
Para o seu Wilson, Neto é um viciado em maconha que precisa ser excluído da sociedade para se tratar, pois sua vergonha em ter um filho maconheiro o impede de perceber que a falta de dialogo, de generosidade e compreensão com as necessidades do outro (mãe e filho) são as reais causas de sua família disfuncional, ou seja, que não funciona para o amor.
Além disso, o filme nos mostra sem nenhum pudor como tratamos os doentes mentais, ou melhor, como destratamos. Os diferentes devem ser excluídos, trancados em pequenas celas ao menor sinal de desobediência, e sistematicamente desumanizados, pois, não agem como os “nobres” normais. Portanto, transformamos os loucos em indivíduos sem expressão e sem brilho. E assim, tripudiamos sobre o alerta do cantor Caetano Veloso: “gente foi feita pra brilhar”.

Para aqueles que ainda acham que estou extrapolando, cabe lembrar que ainda temos milhares de indivíduos nesse país morando em hospitais psiquiátricos ou "cracolândias". E enquanto houver uma pessoa sem casa (moradora de rua ou em manicômio), sem família e sem brilho, isso jamais será um exagero meu. Mas quem era Neto, nosso protagonista? Um doente mental? Um viciado em drogas? Um adolescente rebelde? Um jovem cheio de sonhos impossíveis? Ou somente um filho incompreendido? Confesso que não tenho todas as respostas, somente algumas pistas, porém admito a convicção de que Neto era também um herói que perdeu a batalha para o seu bicho de sete cabeças cotidiano.

Daí, a necessidade de acolhermos nossas limitações,  buscando a (re) invenção diária de nossas potencialidades. E, se por acaso, formos acometidos (ou aprisoinados) por algum sofrimento mental, cabe sempre à reflexão sobre a condição humana e o cuidado consigo mesmo. 

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