O uso dos remédios para os transtornos mentais


São notórios e indiscutíveis os avanços da indústria farmacêutica que oferecem medicamentos  cada vez mais eficientes. Por outro lado, não se pode deixar de repudiar algumas condutas mercadológicas do setor, no mínimo controversas, próprias de um capitalismo que se baseia no consumo cada vez mais intenso de produtos e margem de lucros que nem sempre respeitam alguns valores indispensáveis para uma convivência solidária e ética entre as pessoas. Se não,como explicar a campanha de sucesso que vendeu um medicamento com o slogan, “a pílula da felicidade”, estimulando o uso (ou abuso) de forma enganosa e equivocada.  Saliente-se que, apesar deste sucesso contraditório de marketing, conquistado há mais de 20 anos, outras similares foram lançadas baseadas no mesmo paradigma e até hoje, ainda, nos consultórios médicos, alguns profissionais precisam lidar com essa “sedução do mercado” e as expectativas descabidas geradas nos consumidores. Portanto, se por um lado devemos às ofertas da indústria farmacêutica a possibilidade de tratamento adequado das pessoas sem retirá-las de seu cotidiano e convívio social, por outro, induziu-se na população a idéia de que os remédios, utilizados nos transtornos mentais, possibilitam soluções mágicas e isentas de trabalho e esforço individual.

Sendo assim, cabe ao médico não só a prescrição adequada e pertinente destes psicotrópicos como o esclarecimento e orientação fundamentais quanto as ações verdadeiras deles sobre os quadros clínicos. Nesse caso, apesar de achar válido que qualquer profissional médico prescreva uma medicação psiquiátrica. Inclusive, particularmente, considerando extremamente ético que um primeiro atendimento medicamentoso seja feito pelo médico assistente mais próximo e inicialmente procurado, amenizando o quanto antes o sofrimento do portador de transtorno mental, ao mesmo tempo, acredito ser  fundamental que posteriormente o especialista seja procurado e/ou indicado para que possa dar supervisão, seguimento, acompanhar e/ou esclarecer as ações e limitações deste remédio naquele caso específico. Para tanto, costumo propor freqüentemente uma analogia que justifica essa opinião:por exemplo, sei prescrever e orientar o uso de anticoncepcionais, sem dúvida que meus conhecimentos primários da graduação em Medicina me deram essa condição, mas tenho a convicção de que meus colegas ginecologistas são “mestres” no manuseio destes medicamentos e possuem um refinamento clínico no trato diário com as mulheres que nenhum curso teórico me deu ou poderia dar, portanto, cabe a eles a palavra final ou acompanhamento.  Penso o mesmo sobre a prática e o manuseio das medicações psiquiátricas, cabe ao especialista.

Dito isso, é importante salientar que é cada vez mais comum algumas pessoas procurarem a ajuda psiquiátrica e/ou o uso da medicação como forma de resolver questões emocionais que deveriam ser sanadas somente com mudanças de comportamentos (ás vezes através  da ajuda do profissional psicólogo, outras simplesmente deixando de lado a teimosia de não efetivamente assumir as opções feitas na vida e/ou “serenamente” acolher a frustração imposta pela realidade). A sociedade é cada vez mais seduzida pela impressão de que os desejos devem ser conquistados de forma rápida, indolor e sem nenhum trabalho. O ser humano tem caminhado no mundo enfeitiçado, ainda, pelo “mito do jardim do Éden”, onde a felicidade é obrigatória e imutável (ou seja, não há nuances e nem movimentos). Assim sendo, seu limiar de dor e/ou insatisfação é cada vez mais rebaixado. Daí a busca incessante de resultados rápidos e a não aceitação do sofrimento (ou de uma realidade limitante).  Obviamente que não se deve reverenciar essa dor, vivendo de forma masoquista e resignada, mas é importante acolher suas limitações e de forma efetiva buscar a reinvenção das expectativas e/ou a sabedoria do “vir a ser” dentro daquilo que é possível conquistar.

Concluindo, é preciso digerir e efetivamente aceitar que naquelas pílulas da farmácia existem apenas substâncias químicas que podem atuar modificando algumas sensações corporais. Porém, não resolvem problemas amorosos, familiares, de relacionamento, questões profissionais, expectativas de empregos e/ou a desvalorização social.

Prescrever medicações para os transtornos mentais, portanto, exige o refinamento clínico no trato com pessoas onde se deve valorizar o doente com suas singularidades e não a doença mental e as consequentes propostas “milagrosas” da indústria farmacêutica.

Assim é minha concepção da prática psiquiátrica adequada.

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