O risco de sermos expulsos do “Paraiso” Facebook


Em outro artigo já postado (O poder da fofoca) fiz pontuações a respeito da fofoca e seu poder sobre o mundo. Procurei esclarecer o quanto este fenômeno foi e sempre será fundamental na configuração da sociedade humana, estando enraizado em todos os setores e níveis de nossa convivência social.

Ter as impressões sobre o outro e divulgá-las independente de sua veracidade pode até ser considerada uma prática constrangedora, mas, cá entre nós, também contribui para o surgimento de um novo relacionamento amigável. Nada é mais agradável ao ser humano do que ter a concordância de alguém sobre o que pensa de um terceiro indivíduo ou fato. Falar do outro aproxima as pessoas.

Saliento que este processo existe desde os primórdios da civilização humana. Os humanoides em suas tribos de não mais que algumas dezenas de integrantes, desde as primeiras experiências com o fato de ser agrário, costumava viajar pelas pradarias, caçando, e voltava pra casa contando histórias de suas aventuras e as impressões sobre outras tribos observadas.

Falava-se do vizinho e assim conhecia-se um pouco mais sobre o mundo enorme fora das cavernas. Com o tempo foi-se aprimorando as ferramentas, inventaram os trovadores, mercadores etc., cujo ofício era praticar a fofoca cotidianamente (em certo sentido). Chegamos ao jornal com um alcance ainda maior de divulgação, o telégrafo, rádio e a televisão. Enfim, falar do vizinho tornou-se não só um hábito como uma necessidade ainda maior, pois as pradarias viraram nações e mundos distantes. Era preciso observar, conhecer a todos, vigiar... Cá entre nós, controlar os vizinhos.

Mas o ser humano é um animal ambicioso, sempre quer mais daquilo que já tem, independente da necessidade ou não, seja patrimônio material, afetivo, intelectual ou social, ele quer ter mais para poder ser mais. Não seria diferente com o controle. Aprimorou de tal forma sua tecnologia que inventou a internet tornando o grande mundo lá fora uma “simples aldeia global”.

Tornou-se possível ter acesso a todos seja lá de que lugar for e, obviamente, continuar colhendo impressões sobre os vizinhos. Dai, nasceram as redes sociais virtuais. De tempos em tempos uma nova, mas todas com o mesmo princípio: se falarmos de todos e para todos criamos a falsa impressão de mais amigos, nada diferente do que já dissemos: “Falar do outro aproxima as pessoas”. Imagina podermos fazer isso com milhares ao mesmo tempo. É inebriante!

No meio dessa “viagem” um jovem adolescente esperto se junta a outro “nerd” (por sinal brasileiro) e criam o Facebook. Com o tempo a esperteza venceu a criatividade, rompendo uma sociedade, e sozinho o jovem tornou-se dono da maior rede social virtual do planeta com mais de 2,3 bilhões de usuários. Considerando o que já foi dito sobre a fofoca, imagine o que o dono de um instrumento fofoqueiro desse porte poderia fazer em nosso meio ?!

Antes, cabe salientar que esta ferramenta não criou nada de novo, ainda, em nossa configuração social, apenas potencializou comportamentos já enraizados há milhares de anos, conforme já esclareci também em outro artigo (Facebook é bom,  mas é ruim). Mas o fato é que num mundo capitalista como o nosso, não basta ter o dinheiro, é preciso sempre ter mais controlando a tudo e todos a seu redor.

E ai mesmo que o esperto rapaz tenha mais de dois bilhões de clientes ávidos por usar sua ferramentas dando-lhe lucros astronômicos, ele se seduz facilitando pra que outro (tão esperto quanto ele e bem menos ético) obtenha as impressões destes usuários e induza-lhes comportamentos. Novamente o ser humano faz uso da fofoca para observar, conhecer, vigiar e controlar vizinhos.

O interessante é que mais uma vez o homem torna-se voraz, ambicioso e desobediente estando no “Paraíso”. Na “aldeia global” o mundo deveria ser “democrático” e todos deveriam ter a mesma possibilidade de divulgar suas fofocas: todos conhecem, vigiam e controlam a todos.  Porém, com essa voracidade pelas informações alheias, a ambição pelo poder e a desobediência ao “Grande Irmão”, corre-se o risco de novamente sermos expulsos do “Paraíso”, envenenados pela maça do dinheiro.

Tomara que dessa vez o “rapaz esperto” não ponha a culpa em alguma “Eva”, mas perceba sua própria burrice. Ou então inventa-se outro instrumento, pois a fofoca... Bem essa faz parte de nós. 

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