O que podemos esperar das redes sociais virtuais


Em tempos de redes sociais virtuais, com a possibilidade de entrar em contato com milhares de pessoas ao mesmo tempo, acho válido a reflexão do porque se toma tal atitude. O que nos levaria a postar algo sabendo que será lido e, obviamente, interpretado das mais diversas maneiras e intenções?

Confesso que algumas vezes ainda me pego indignado (e não deveria) com algumas opiniões descabidas, irresponsáveis e totalmente sem ética ( a meu ver, daí, talvez a impertinência). Principalmente quando a postagem trata-se da opinião sobre uma pessoa que na grande maioria das vezes o autor da postagem mal conhece (ou sabe) do contexto de vida que esclareça o comportamento desse outro. Por outro lado, temos também as chamadas celebridades ou “pessoas públicas” que, por conta da sua dinâmica de vida, está sujeita (ou se sujeita) exatamente a estes comentários. No frigir dos ovos, aquela pessoa que aposta no “falem mal, falem bem, mas falem de mim”.

Quais seriam as possíveis razões para este fenômeno em nosso cotidiano de forma tão predominante?

O “bicho” da vaidade é uma das razões. Antes de resistirmos em aceitar essa ideia, analisando-a somente de forma pejorativa é preciso compreender a necessidade do ser humano de ser reconhecido, aceito e valorizado pelo outro. E por este “sentimento” que nos inserimos na sociedade, aceitamos suas incongruências e demarcamos nosso espaço social: eu me sinto alguém a partir do olhar e percepção do outro. Ele me dá sentido.

Apesar de haver exageros de alguns nesse processo, a ponto de somente conseguir ser aquilo que agrada ao outro, cabe salientar o quanto natural (e até necessário) é para o ser humano relacionar-se assim com outro de sua espécie. Este processo se inicia quando criança descobre a si mesma (e se delimita) através do olhar da mamãe e assim segue até a vida adulta. E por que a vaidade? Por que quanto mais mamãe me olha, mais me satisfaço, sou capaz de fazer tudo para manter essa dinâmica, até demonstrar o que não sou ou desejo. Antes de ser eu mesmo, preciso ser “o filho da mãe”. Sendo assim, cuidado!

Outro ponto fundamental é a nossa tendência a se aproximar dos outros para falar de alguém. Nós gostamos e nos identificamos com aqueles que pensam de forma semelhante sobre um terceiro qualquer. Daí, criamos a fofoca e desbravamos o mundo ou os outros povos. Num outro artigo já postado, “o poder da fofoca”, esmiuçamos esse processo e o seu valor para a civilização humana. O fato é que com a socialização potencializada a ponto de podermos expor nossa opinião a milhares de outras pessoas, é óbvio que seria preciso falarmos de tudo, de todos e com “propriedade”. Afinal, onde ficaria minha credibilidade? Como buscaríamos nossas identificações ou opiniões similares?  Apesar da “banalização” do termo, não é de todo errado dizer que postamos, buscamos e precisamos dos “face-amigos”.

Entretanto, não podemos nos esquecer de que somos preparados (e evoluímos) para conviver em grupos pequenos (no máximo 150 a 200 pessoas). Nosso cérebro não está ainda acostumado a tantas informações, aprendizados e novos dados em tão pouco tempo. Cá entre nós, ele pode até armazenar (afinal essa capacidade é imensa), mas sem a devida decodificação dos dados. Sem a reflexão adequada e construção consistente de uma opinião. “Conviver” ou trocar dados com cinco mil pessoas é no mínimo estressante, pois não é natural. Daí a postura irritadiça, inquieta, ansiosa, e às vezes intolerante e sem o devido cuidado na comunicação clara.

Alguns afirmam que as crianças atuais são melhores preparadas, pois sabem mais coisas sobre o mundo. Basta ser um pouco mais criterioso na observação para perceber o quanto essas crianças também são, na mesma proporção, imaturas emocionalmente e intolerantes à frustração. Acumular dados do mundo sem a devida reflexão é exigente demais e antinatural ao cérebro, há o acumulo, mas não acolhimento adequado dos dados do ambiente.

Dito isso, sugiro a reflexão sobre qual poderia ser a postura mais pertinente a se tomar no processo. A meu ver, uma das atitudes mais inadequadas seria fechar os olhos ao fenômeno fazendo de conta que em nada interfere sobre nosso cotidiano atual. Seria o mesmo que dizer: a televisão não tem nada a ver com a maneira como as pessoas construíram seu convívio social desde os anos 60 do século passado. Não ditou normas, posturas, construiu opiniões, conceito ou preconceitos sobre nós mesmos.  Parece-me ser exatamente o contrário, quer você queira ou não. As redes sociais virtuais estão cada vez mais interferindo e construindo o nosso convívio social. Dita normas, posturas, constrói opiniões, conceitos e preconceitos sobre nós mesmos.

Entendo que o primeiro passo rumo à boa adaptação seria o reconhecimento do fenômeno sem descontextualiza-lo da condição humana natural, mantendo-se atento aos seus valores, crenças, posturas e comportamentos originais.  Aproximar (o melhor seria nunca se afastar) aquilo que posta ou publica daquilo que é enquanto pessoa no dia-a-dia.

Particularmente, considero que a atitude mais importante seria fazer as postagens, publicações ou comentários avaliando sobre o que está sendo oferecido ao outro. Não no sentido da determinação, mas de transformação da vida.

Qualquer encontro, mesmo virtual, sempre tem o potencial não só de informar, mas também de transformar duas novas pessoas. Sugiro que ofereça nele aquilo que gostaria de receber.  

 

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