O que é transtorno conversivo ?


É ainda bastante comum, algumas pessoas procurarem o neurologista ou o psiquiatra para tratamento de algumas crises peculiares, sendo que estes episódios assemelham-se as convulsões. Ou seja, de uma maneira aguda e dramática desenvolvem aparentes perdas da consciência, comprometimento visual, auditivo, motor ou de fala. Em casos mais graves podem chegar à paralisia de membros inferiores ou superiores, estados de possessão ou confusão de identidade.

Porém, também nestes casos, percebemos algumas características incomuns nos relatos que costumam ocorrer na presença de outras pessoas. É preciso deixar claro que não há uma perda da consciência real e com uma avaliação e exame psíquico bem feito rapidamente podemos chegar à conclusão de que todos os sintomas, na verdade, são representações ou simulações inconscientes ou parcialmente conscientes da pessoa. Portanto há uma teatralidade (dramatização) que, a meu ver, inclusive, prejudica o tratamento adequado do caso.

Em meu consultório, o desafio inicial é perceber onde está o ganho secundário desta pessoa com esse quadro clínico. Por outro lado, faço questão de frisar que há um sofrimento verdadeiro, também, em seu portador. Sendo assim, ele merece respeito, atendimento adequado e não cabem posturas “sádicas”, seja dos familiares ou dos profissionais assistentes.

Concluindo, e por conta do contexto colocado anteriormente, não acho adequado que estes casos sejam conduzidos pelos colegas neurologistas. Apesar de algumas vezes ate sugerir uma avaliação deste especialista para afastar qualquer possibilidade de etiologia orgânica para os sintomas. Mas, na medida em que isso seja afastado, saliento tratar-se de um transtorno mental específico que deve ser tratado adequadamente com conhecimentos e posturas do cotidiano dos psiquiatras.

Principais sinais e sintomas:

Crises agudas e dramáticas de movimentos tônico-clonicos generalizados, agitação psicomotora, excitação, tremores, amnésia, transe, perda da sensibilidade, distúrbios visuais, paralisia, afonia, discurso desconexo, comportamentos bizarros ou estranhos, aparente estado de possessão. O quadro clínico pode mudar de uma hora para outra, além de ser bastante incomum. Quase sempre está relacionado á busca de atenção de terceiros. Em casos mais crônicos, os pacientes podem parecer calmos em vista da gravidade da queixa.

Informações ou dicas relevantes:

As queixas físicas ou neurológicas, frequentemente, não tem uma causa orgânica clara. Sendo o relato delas bastante dramatizado pelos portadores. O início pode ser ocasionado por estresse, frustração, trauma emocional agudo ou situações de conflitos.
O quadro clínico costuma desaparecer rapidamente (de horas a poucas semanas) e não deixam dano mental permanente.
Em alguns casos, o fato de haver a experiência anterior do paciente com outro portador de quadro semelhante dá a patoplastia (maneira de se apresentar) do caso.
Todas as propostas terapêuticas e orientações devem ser dadas de maneira objetiva, clara, com o devido cuidado em não se contaminar com a dramaticidade do relato feito seja pelo paciente ou pelos familiares.
Os cuidadores/familiares devem ser “treinados” a não cair na teatralidade manifesta ou na tentativa de ganho secundário com a doença, por parte de seu portador.
Os profissionais de saúde devem estar atentos à armadilha de assumirem relacionamento profissional “sadomasoquista” com estas pessoas. Portanto, não cabe qualquer atitude ou conduta baseada no castigo ao outro.

Propostas de cuidado adequado:

Estimular o paciente a perceber e admitir o estresse e dificuldades recentes, mesmo que este negue esta correlação.
Trabalhar com reforço positivo para a melhora clínica e procurar não valorizar os sintomas.
Em alguns casos até cabe um breve repouso para alívio do estresse, porém o quanto antes o paciente retornar ás suas atividades habituais, é melhor para o prognóstico clínico. Portanto é adequado aconselhar contra repouso prolongado, licenças médicas ou afastamento das atividades cotidianas.
Evitar o uso frequente ou abusivo de calmantes ou sedativos.
Em quadros mais crônicos podem ser utilizados os antidepressivos com ação ansiolítica.
Estimular a atividade física regular para produção das endorfinas, além de potencializar uma melhor qualidade de vida.
Montar estratégia adequada de cuidado que evite as avaliações constantes em serviços de emergência, por exemplo, prontos socorros. Por outro lado, se for necessário o uso de medicação, evitar seu uso em atendimento de ambulatório ou consultório.
Quebrar o círculo vicioso de ganho secundário de atenção dos familiares com as crises e evitar a manipulação dos cuidadores por parte destes pacientes é, talvez, o grande desafio diário neste tratamento.

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