O que causa os transtornos mentais nas pessoas


Hoje em dia, muita especulação tem sido feita com relação ao que causa os transtornos mentais nas pessoas. Alguns ficam perplexos com algumas reações (ditas descabidas) dos indivíduos diante das exigências do ambiente. Porém, numa sociedade cada vez mais contraditória em seus valores, estressante e cuja configuração não favorece a solidariedade, chega a ser comum atribuirmos os“traumas” como os “maiores” causadores das doenças mentais: “Fulano ficou ruim da cabeça por causa daquele trauma”; “Ciclana se perdeu por não saber suportar a perda”, ou então, “Beltrano não deu conta de tanto estresse... Por isso, ficou maluco”. O fato é que muito se tem dito e poucas conclusões adequadas têm sido feitas, pois também não é surpresa que outras pessoas reagem melhor ou de forma “mais saudável” diante dos mesmos tipos de problemas. Eis que surge a questão: porque algumas pessoas perdem sua saúde mental, e outras não, diante das mesmas situações? A doença mental é causada por ocorrências do ambiente? Por que algumas famílias costumam ter transtornos mentais similares? Ou ao contrário, porque parentes próximos têm reações tão diversas diante de um trauma familiar? E pra complicar, às vezes, nem um trauma é percebido ou existe e mesmo assim alguns se tornam portadores de transtornos mentais. Como explicar?!

Diante dessas colocações iniciais, fica evidente que a chamada etiologia dos transtornos mentais obedece a um sistema complexo de elementos onde o raciocínio não pode ser linear, simplista e/ou reducionista. Geralmente há um conjunto de fatores que ccontribuem para o processo e nem mesmo a pessoa que sofre da doença consegue discernir e perceber a todos eles. Mesmo assim, é fato que o diagnóstico dado ao paciente de forma clara, com o máximo de informações esclarecedoras quanto ao quadro clínico que se apresenta, facilita a aderência do doente às orientações dadas, potencializa o tratamento proposto e orienta a todos os envolvidos na ocasião quanto a condutas pertinentes e preventivas a serem tomadas. Ou seja, apesar de complexa a resposta, as perguntas do portador de transtorno mental quanto ao seu quadro clínico precisam ser respondidas: “Porque fiquei doente da cabeça?”; “Como isso aconteceu comigo e não com o outro?” “Como e porque eu reagi assim?”.

Ao longo dos meus anos de pratica clínica, após ler muitos autores e também ter aprendido com os pacientes, assimilei um “esquema teórico” sobre esse tema e costumo usá-lo pra esclarecer essas perguntas, seja em sala de aula ou no consultório. A primeira pontuação a ser feita é que todo e qualquer comportamento só pode ser esclarecido e compreendido em sua essência se conhecermos minimamente a história de vida de seu autor, ou seja, a análise não pode ser feita pelo comportamento restrito em si mesmo. Nesse sentido, infelizmente, o preconceito e a miopia são comuns nas pessoas ao falar do comportamento dos outros. É costume estabelecerem-se conclusões, julgamentos, sentenças e “verdades” sem nenhuma consideração pelo contexto e singularidades dos sujeitos. O pior são as definições grosseiras e deterministas que não trazem nenhum benefício á compreensão do outro, por exemplo: fulana é bipolar, costumam dizer esses irresponsáveis julgadores frente a qualquer oscilação do humor ou reação fora dos seus padrões. Cabe salientar, o diagnóstico só é válido, e deve ser dado, se traz benefícios ao paciente, se não, vira “rótulo”discriminatório.

Dai que, no consultório, após algumas perguntas sobre a biografia e evolução do sujeito, costumo tentar perceber nele 03 conjuntos de fatores e/ou vulnerabilidades dentro de um esquema teórico para o meu raciocínio:

 1. Fatores/vulnerabilidades constitucionais (hereditariedade, gênero, raça, herança familiar, constituição física, etc.). São aqueles fatores que não dependem da ação ou reação do sujeito;

2. Fatores/vulnerabilidades pessoais (personalidade, histórico de vida, maneiras mais frequentes de reação, convívio social, relações interpessoais, etc.). São aqueles que dependem diretamente da ação e/ou reação do sujeito ao longo da sua vida.

3. Fatores/vulnerabilidades circunstanciais (dinâmica profissional, dinâmica de relacionamento amoroso, crise financeira, crise conjugal, situação social, etc.). São aqueles que dependem, em parte, da ação e reação do sujeito no momento crítico atual.

 As pessoas podem se tornar portadoras de transtorno mental se houver comprometimento nos três conjuntos de fatores (constitucional, pessoal e circunstancial) onde as vulnerabilidades fragilizam sua capacidade de elaboração. A título de exemplo, para uma pessoa se tornar depressiva (ou outro transtorno qualquer) ela precisa estar fragilizada constitucionalmente (gênero, hereditariedade, cultura familiar), pessoalmente (personalidade pouco agressiva, reações às perdas, rede social pobre, etc.) e circunstancialmente (perda relevante, crises, etc.). Saliento a necessidade da ocorrência das fragilidades nas três formas. Pode até haver predominância ou relevância clínica diferenciada, o que afetará na proposta de tratamento a ser feito, mas o comprometimento é triplo.

Concluindo, não são somente os traumas os maiores causadores de transtornos mentais, há sempre, também, as características de cada sujeito, sua história de vida, contexto social, situação familiar, etc.,  que agem diretamente na evolução e singularidades do quadro clínico. Daí que não adianta procurar as “receitas de bolo” do “Dr. Google”,  tentando “diagnosticar" um transtorno mental. É preciso o encontro interpessoal com um profissional que, no seu “esquema teórico”, tentará perceber a pessoa, suas singularidades, contexto e circunstâncias atuais que possibilitem uma explicação para o sofrimento psíquico do sujeito, jamais um rótulo. 

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