O problema não está nem à esquerda ou direita, está no ódio.


Os debates nas redes sociais têm me deixado curioso, intrigado e motivado em compreender suas origens, motivações, fatores de discordância ou concordância. Durante anos, tive um perfil pessoal no Facebook e, por ser médico talvez, tendo configurado ele como publico e aberto a qualquer pessoa, tive o prazer de construir um conjunto relevante (quase 5 mil pessoas) de visitantes ou “faceamigos” de todos os gêneros, classe social, perfil cultural, etc. Nesse espaço, propositadamente, postei por muito tempo “reflexões”, opiniões ou noticias dos mais variados temas com objetivo de provocar a conversa entre as pessoas com troca de pontos de vistas sobre um mesmo assunto.

Com o tempo, as conversas tornaram-se complicadas, muitas vezes, improdutivas na maioria ou com uma formatação mais de briga do que qualquer outra coisa. Incomodado exclui o perfil e construí uma fanpage para falar de Saúde Mental. Era mais saudável e mais construtivo.

Mesmo assim, continuei observando algumas conversas na timeline. Imaginem as pérolas que pude acompanhar ou troca de comentários dos mais diversos nas discussões.  Fui criando uma impressão sobre o convívio social e algumas convicções sobre a natureza ou índole do ser humano. Até escrevi um artigo (“Todos saindo do armário”) pontuando minhas conclusões.

Com a radicalização vigente nos discursos das pessoas, as brigas tornaram ainda mais intensas e, algumas, quase violentas no sentido do desrespeito com o outro. Por questões de militância ou postura política, muitos se acusam de lado a lado de responsabilidade sobre os rumos dado aos debates. O interessante é que os simpatizantes têm a convicção irredutível do quanto o outro lado é pernicioso ao convívio social.

As redes sociais tornaram-se arenas com violentos gladiadores prontos a subjugar o inimigo. Daí as questões: como isso interfere na saúde mental das pessoas? Onde estará o problema desses encontros virtuais nessas condições?

 Com certo distanciamento, proposital e “treinado” pela minha formação acadêmica, tenho observado os argumentos usados, as estratégias de comunicação, os discursos construídos e os preconceitos explícitos pelos sujeitos envolvidos nessas discussões. Uma interessante conclusão particular é que quanto mais próximos dos extremos as posições se estabelecem, mais similares são as formas de imposição, troca de agressão e dificuldades de compreensão do outro. Cá entre nós, querem eles queiram ou não, quanto mais contrários, mais se parecem próximos na maneira de ser.

 Não me parece que a isenção seja possível ou adequada nas conversas, até porque a maioria dos impasses obriga uma posição. Não há como ficarmos em cima do muro, pois ele tornou-se uma parede, exige um lado para se estar. Mas, sem dúvida, o incomodo transborda na situação e todos são contaminados. A convivência é pesada, não esclarece e nem transforma nenhum dos envolvidos, nem os expectadores escapam do clima de tensão construído.

 Tentamos nos aproximar de um lado ou do outro conforme os argumentos usados e a identificação com as conclusões colocadas. Cada um procura demonstrar sua visão de mundo e com ela compactuar ou propor no impasse explicito. Mas, o que faz sentido nessa erupção de sensações é uma energia negativa, uma náusea ou enjôo por algo não digerido.  

A repercussão na saúde mental é prejudicial, nossos sentimentos ficam truncados e o raciocínio comprometido.  O desejo predominantemente é dar as costas ou de ombros ao que nos é compartilhado. Tensos. Estressados. Irritados. E que se dane todo mundo, dizemos.

 Meus caros fiquem atentos, pois o real problema não está á esquerda ou à direita, está nesse ódio compartilhado. Quase como uma virose endemicamente difundida.

E ai cabe à pergunta: com quem você se identifica?

Qual será o seu papel no processo?

Com certeza a subversão estará nos atos de amor, sejam eles quais forem.

Vacine-se!

 

 

 

 

 

 

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