O melhor tratamento para um transtorno mental


Na década de 1980 o conceito de saúde preconizado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) passou por uma importante revisão influenciada pelas discussões que se fazia na época em relação ás politicas públicas para o setor na América Latina. Em nosso território, o chamado Movimento Sanitário proporcionou discussões fundamentais sobre a maneira como o Estado brasileiro lidava com sua saúde pública.

O fato é que na 8ª Conferencia Nacional de Saúde, chegou-se a conclusão que fatores como emprego, moradia, ambiente profissional e familiar, posse de terra, condições de saneamento básico, etc., enfim, características indispensáveis para uma boa qualidade de vida de uma pessoa, estavam implícitas e fundamentais na possibilidade ou não de saúde em um indivíduo. Ou seja, definia-se de uma vez por todas que um sujeito para ser saudável, não significava que ele não fosse portador de uma doença. Era necessário haver condições de sobrevivência adequada, qualidade de vida e capacidade de gerenciá-las adequadamente.

Três questões pedem uma reflexão pertinente:

 1. o sujeito pode ser portador de uma doença e mesmo assim ser saudável, como?

2. qual o melhor tratamento a ser oferecido diante de tal complexidade de variáveis?

 3.portanto, considerando nosso foco de debate,qual o melhor tratamento para um transtorno mental?

Cabe salientar que o processo de adoecer está diretamente ligado a personalidade de cada individuo.  Independentemente dos sinais e sintomas que se espera encontrar no processo, cada um tem sua maneira de sentir, perceber, agir e reagir às “dores” impostas pela doença. Obviamente que as condições sociais, de relacionamento, materiais e emocionais de um sujeito determinam todas as suas ações e conseqüências que estejam presentes durante este adoecer. No frigir dos ovos o que realmente existe na prática é o sujeito e sua forma peculiar de estar doente. Independente do que dizem nos tratados de psiquiatria, a depressão que existe é a do João, Maria, Ana, Pedro, etc., ou seja, o que está nos livros é uma construção teórica, mas o que faz uma pessoa sofrer são as suas necessidades comprometidas. Isso é o real.

Obviamente que o profissional de saúde não pode abandonar as diretrizes teóricas aprendidas e não deixar de ficar atento e focado nos critérios clínicos rigorosos para se fazer um diagnóstico. Somente assim ele poderá “traduzir” a si mesmo as queixas trazidas pelo doente e projetar possíveis saídas. Mas é preciso abrir todos os seus sentidos para acolher e assimilar o sofrimento do paciente, procurando perceber no seu discurso onde se encontra as limitações do adoecer impostas.

 Estabelecer seu raciocínio clínico tentando buscar soluções ou encaminhamentos para as fragilidades que, naquele instante, se fazem presentes no sujeito doente.  Me arrisco a dizer que um psiquiatra não é o suficiente para cuidar de uma pessoa deprimida, um psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, enfim todas as diversas profissões de saúde talvez não sejam suficientes para acolher toda a dor de uma pessoa com depressão, por exemplo.

É preciso cuidado com sujeito doente, considerar a complexidade da condição humana, suas potencialidades e limitações. Caminhar junto durante o processo de adoecer, responder algumas perguntas, admitir não ter todas as respostas e se propor a reconstruir questões e pontos de vista a todo instante. Para um pessoa doente é preciso outras pessoas solidárias e atentas a ela.

O melhor tratamento a se oferecer são algumas respostas técnicas do seu núcleo de saber, onde o processo de adoecer é bem mais amplo e com perguntas que fogem do seu campo de atuação.  Conforme a necessidade de cada sujeito fragilizado por uma doença, cabe ao profissional de saúde estar aberto a multiprofissionalidade, com a clareza que seu ponto de vista técnico restrito é somente um ponto a ser adicionado a alguns outros que naquele momento precisam também ser valorizados.

Difícil? Nem tanto... O sujeito pode ser portador de uma doença e ser saudável? Sim, desde que tenha condições de administrar sua dor sem deixar de buscar a melhor qualidade de vida possível.

Qual o melhor tratamento a ser oferecido diante de tal

complexidade de variáveis?

Aquele que se solidarize com as principais necessidades do sujeito doente, sejam elas quais forem.

Qual o melhor tratamento para um transtorno mental?

O envolvimento técnico, ético, solidário e diversificado do profissional de saúde de forma que o sujeito doente não perca sua capacidade de sofrer e sair do sofrimento, dinamicamente, superando a dor e buscando a vida.

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