O “jeitinho brasileiro” e as próximas eleições


É fato que, por questões culturais e de colonização, o brasileiro tem como uma de suas características comportamentais a tendência a resolver as coisas de forma criativa e, também, com intenção de levar vantagens – aquele “jeitinho brasileiro” de ser. Para melhor compreensão desse fenômeno sugiro a leitura da obra de Sérgio Buarque de Holanda: “Raízes do Brasil”. Alguns antropólogos dizem ser um conceito controverso esse tal “jeitinho”, pois sugere uma cordialidade e maior afetividade no trato interpessoal, portanto positivo. E também indica tendência a resolver seus problemas cotidianos de forma especial, cá entre nós, com comportamento corrupto. Daí uma questão importante nos dias atuais diante desse contexto sociopolítico em que estamos mergulhados: quais as consequências do “jeitinho brasileiro” nas próximas eleições?

Já pontuei em artigos anteriores o quanto as Redes Sociais potencializam características humanas. Às vezes tenho a impressão de que o Facebook é uma potente lupa sobre o nosso cotidiano, denuncia nossos comportamentos, opiniões e valores. Ao mesmo tempo em que somos cordiais ou criativos em nossas manifestações, também costumamos propor ou aceitar soluções “especiais” para debates, posições e atitudes frente a temas ou situações (conforme traga vantagem à nossa opinião). Na Rede isso é ainda mais evidente e predominante, na verdade só mais potencializado, nada novo ou original em relação a nossa condição humana.

Em se tratando da corrupção, com o advento da Lava Jato, percebe-se uma forte corrente hegemônica contrária a prática. Inúmeros são os discursos bem construídos e fundamentados, obviamente intolerantes a esse comportamento na classe política. Daí surge às incoerências. É fato que o mesmo indivíduo que de forma louvável condena as ações de alguns de nossos políticos, no seu dia-a-dia não vê nenhum problema naquele “favorzinho” feito a si mesmo numa repartição pública. Ou então aquela pessoa que vocifera aos quatros ventos sua indignação com os comportamentos de alguma personalidade com o qual ela não se identifica, porém, condutas similares de outro que é simpatizante mostra-se tolerante e compreensivo. Enfim, aos “correligionários” somente as flores, aos “adversários” todos os horrores.

É obvio, a meu ver, que a questão da ética será um tema recorrente em nosso próximo processo eleitoral com possíveis debates acalorados e intensos. Entendo que, dessa vez, de forma ainda mais proeminente e peculiar por conta da operação Lava Jato e a influência das Redes Sociais. Sendo assim, torna-se fundamental que todos nós façamos uma reflexão séria a respeito de que sociedade gostaríamos de construir. Por mais que tenhamos nossa cultura e valores enraizados, com uma tendência a buscar vantagens, é fato que pagamos um preço histórico nada agradável por conta do nosso “jeitinho”. Nesse caso, se queremos desconstruir isso ou (re) construí-lo em outros moldes, não podemos nos seduzir ou nos deixar levar por estas incoerências da vida privada levada a pública, ou vice versa. Ambas necessitam urgentemente de valores morais e éticos consolidados.

Proponho que nas próximas eleições sejamos rigorosos e inflexíveis com todas as propostas políticas e posturas de candidatos que não respeitem a máxima: o fim alcançado não justifica os meios utilizados, até porque o caminho percorrido define a forma de ser do sujeito. Isso sim, é o mais importante.

 

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