O gol mais bonito de Casagrande numa Copa do Mundo


Walter Casagrande Júnior foi desses artilheiros ímpares, que fazem história e tem estrela no mundo do futebol. Logo em seu primeiro jogo profissional pelo Corinthians (com 18 anos) fez quatro gols (dos 103 posteriores) caindo nos braços da fiel torcida do Timão (por onde passou em três períodos diferentes). Jogador raçudo e que não desistia nunca de uma disputa,segundo contam os boleiros, com o perfil que os corintianos gostam.

Tanto que num jogo de futebol, em que defendia o Flamengo, foi ovacionado pela torcida adversária, nesse caso a Fiel, ou seja, conseguiu ser um artilheiro amado pelas duas torcidas adversárias presentes numa mesma partida.  Inteligente, politizado e rebelde fez parte do movimento “Democracia Corintiana”, na década de 1980, revolucionando o “vestiário” futebolístico.

Foi companheiro, dentro e fora do campo, do Dr. Sócrates, outro jogador único (e craque) nesse universo. Ambos, a despeito de todas essas contribuições ao esporte, gostavam da noite e seduziram-se pelas drogas. Sócrates pelo alcoolismo e Casão (como era chamado) à cocaína.  Ambos participaram diretamente do movimento “Diretas já” e contribuíram substancialmente à nossa sociedade brasileira com sua militância política e postura democrática. Sócrates já se foi, mas Casão continua por ai como comentarista de futebol e na última Copa do Mundo (da Rússia), fora do campo (curiosamente como esteve na Copa de 1986, quando foi reserva) fez seu gol de craque da vida.

Mas qual terá sido o gol mais bonito de Casagrande numa Copa do mundo?

Casão é um ex-dependente químico em recuperação, há tempos admitiu isso publicamente e já havia dado outros depoimentos corajosos sobre o tema. Fez vários tratamentos para o transtorno (inclusive em internação psiquiátrica) procurando sempre passar a mensagem da necessidade de abordagem séria e adequada ao problema – a dependência química.

Saliento que esta é uma questão de saúde pública e está presente em todos os municípios brasileiros, sendo heroica a luta de todos os envolvidos nessa epidemia (profissionais, familiares e os doentes) que encontram possibilidades de elaboração e retomada da vida de forma saudável. Casão sempre manteve postura realista e de enfrentamento honesto sobre sua doença, após torna-la pública.

Mesmo em entrevistas adequadas ao tema discutido, existiu uma predisposição em acolhê-lo da maioria das pessoas ouvintes, havia sempre uma tensão pertinente ao assunto abordado. Ele é sério, causa angústia, gera desconforto e preocupação, sendo assim para alguns pode haver certa resistência em compreendê-lo em toda sua complexidade quando assim abordado.

Eis que numa final de Copa do Mundo transmitida para milhões de expectadores, onde já havia um vencedor e todos comemoravam a conquista, bem como a beleza do evento mundial, Casão pede a palavra (na cabine de televisão) e manifesta sua alegria naquele momento: “essa Copa do Mundo foi a mais importante da minha vida, eu tinha a proposta de vir sóbrio, ficar sóbrio e voltar sóbrio. Eu consegui”... E chora!  Ou seja, num momento de harmonia e comemoração envolvendo praticamente todo o mundo, o sujeito fala de forma simples sobre seus demônios internos e sua luta individual, admitindo sua insignificância e humildade em aceitar “aparentes pequenos” desafios que se tornam grandes obstáculos ao prazer de viver. Algo assim, a Copa é do mundo, mas ela se torna a mais importante porque eu estou bem comigo mesmo e respeito meus limites.

Num evento esportivo onde a disputa necessariamente gera um vencedor e um perdedor, uma satisfação e uma insatisfação, um premiado e outro desvalorizado, faz um golaço aquele que diz que na vida o que importa é estar sóbrio, aceitando sua dor, sua limitação, mantendo-se atento a sua responsabilidade para consigo mesmo e, principalmente, se “autoconstruindo” positivamente.

E no jargão do futebol, podemos dizer que o goleador esperou os minutos finais do segundo tempo de uma partida difícil e disputada pra fazer um gol de placa. E o estádio inteiro aplaude de pé. Parabéns, Casagrande!

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