Nem só de tratamento psiquiátrico ou psicológico devem ser conduzidos os transtornos mentais


Considerando a complexidade etiológica (causas variadas) dos transtornos mentais (tema abordado anteriormente em outro artigo) torna-se óbvio a conclusão de que o tratamento destes distúrbios, baseado somente na prescrição medicamentosa, além de insuficiente, não é adequado e favorece complicações futuras aos portadores de sofrimento mental. Não é incomum, na prática clínica, percebermos quadros clínicos que foram cronificados (ou teve sua evolução protelada ou comprometida) por conta de estarem sendo conduzidos, há anos, somente com o uso de remédios e nada mais, mesmo que estejam sendo usadas medicações pertinentes ao caso. Além disso, cabe sempre salientar que o cuidado adequado aos portadores de problemas de saúde deve ser integral e aplicado a todos os fatores que estejam fragilizando sua capacidade de recuperação. Daí a consequente conclusão de que a abordagem multiprofissional na área da saúde não é somente válida, como necessária e fundamental para melhor evolução, controle e/ou resolução dos processos de adoecer.  É fato que quando isso não é feito, geralmente o profissional assistente está “percebendo”somente a doença e desvaloriza o sujeito portador daquela patologia. Cabe lembrar que o profissional adequado não trata somente a doença, mas, busca proporcionar cuidados para/da pessoa doente objetivando sua qualidade de vida. Esse deveria ser o norte de todos os profissionais que se dizem “da saúde”.

Sendo assim, cabe valorizar a diversidade de cuidado possível aos portadores de transtornos mentais, bem como o leque de profissionais da área da saúde que podem contribuir para solução destes problemas. Seja em relação à condição física/constitucional, condição psicológica/pessoal ou condição circunstancial/social, temos variadas propostas terapêuticas não médicas, que se complementam e possibilitam o sucesso no tratamento, por exemplo, as clássicas abordagens psicológicas grupais e/ou individuais. Entretanto, nesse artigo, proponho pontuar, por ora, algumas abordagens chamadas alternativas (ou menos utilizadas) para os transtornos mentais que têm sido confirmadas cientificamente como adequadas e de êxito clínico quando inseridas nas propostas terapêuticas, são elas: corporais, oficinas expressivo-artísticas e coterapia mediada por animais.

A abordagem corporal parte do pressuposto que o relaxamento, adequação e potencialização da fisiologia do corpo favorece as defesas naturais, por exemplo, do sistema imunológico e neurofisiológico presentes nos organizamos vivos. Não há como negar os benefícios das atividades físicas realizadas de forma prazerosas e orientadas pertinentemente quanto à frequência e tempo de treinos. Caminhadas ou corridas diárias, andar de bicicleta, hidroginástica, musculação e/ou modalidades aeróbicas realizadas nas academias produzem as chamadas endorfinas que agem em nosso corpo como verdadeiros ansiolíticos e/ou antidepressivos com a vantagem de não produzirem os inevitáveis efeitos colaterais das substâncias similares sintetizadas em laboratório. A dança e/ou as práticas físicas que trabalham a respiração e/ou os movimentos corporais também são abordagens que flexibilizam e potencializam nossa capacidade de comunicação e interação através do corpo, proporcionando nossa saúde mental.

As oficinas expressivo-artísticas são experiências e/ou vivências que potencializam a expressão emocional. Trata-se da construção de um produto, inspirado na releitura das “ofertas” do ambiente (sejam elas agradáveis ou desagradáveis), que possa ser “trocado” e/ou imprimir no outro uma sensação/emoção e facilitar a compreensão de uma realidade que nem sempre é acolhedora dos nossos desejos e necessidades, aliás, pelo contrário. As oficinas expressivas são espaços em que as pessoas trabalham com a expressão plástica, com a pintura; a expressão sensório emocional com o teatro; a expressão verbal, com poesias, contos etc.; a expressão musical; a expressão visual com a fotografia, a expressão manual como o artesanato, etc. onde podem perceber, reconhecer e reinventar seu sofrimento numa outra forma mais saudável e passível de interação e acolhimento do outro. As “dores” da condição humana, quando trabalhadas artisticamente, impulsionam também a saúde mental de todos os envolvidos.

Alguns animais, se adequadamente escolhidos respeitando as singularidades do doente, podem se tornar “mágicos” terapeutas conseguindo algumas conquistas com os pacientes que, às vezes, nem uma equipe multiprofissional obtém o mesmo êxito. Estes encantadores bichinhos são os chamados coterapeutas e já existem inúmeras experiências e estudos feitos indicando a pertinência da proposta. Os cães costumam ser mais frequentemente escolhidos, talvez pela sua constante disposição para dar afeto e contato corporal o tempo todo e em todas as situações, juntamente com aquela inocente confiança que incansavelmente manifestam para com os humanos. Essa confiança por parte dos cães provoca uma resposta recíproca das pessoas, que são preparadas para por sua confiança no cachorro e para sentir responsabilidade pelo animal, potencializando sua saúde mental. Por outro lado, não podemos deixar de citar os benefícios da equoterapia. Este é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo como mecanismo essencial para o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência ou de necessidades especiais. Nessa abordagem, essas pessoas são sujeitos do processo. Elas participam de sua própria reabilitação da maneira direta; são “agentes” de sua própria recuperação. Enfim, estas são somente duas das possibilidades de utilização de animais que proporcionam a saúde mental ás pessoas.

Infelizmente, em minha prática clínica, ainda é comum receber ou tomar conhecimento de pessoas portadoras de transtornos mentais que são “taxadas” como “incuráveis” ou sem solução. Algumas estão há anos sob tratamento médico isoladamente e utilizando de medicações pertinentes, as vezes, também sob ajuda de alguma abordagem psicológica. A meu ver, todas essas pessoas estão nessa situação por não diversificar a abordagem terapêutica em uso. Quase sempre se queixam dos remédios utilizados e afirmam que os mesmos não fazem mais efeitos ou não melhoram sua saúde como deveriam. além disso,  "acusam" o profissional psicólogo de não estar lhe proporcionando nenhuma novidade.  A todas essas pessoas e seus familiares costumo dizer que não há transtorno mental sem tratamento, mas sim transtornos mal ou insuficientemente tratados.

E nesse caso a diversificação terapêutica utilizando-se, por exemplo, das abordagens alternativas citadas anteriormente é uma das saídas possíveis. Saliente-se que ter saúde mental significa ter qualidade de vida. Nesse sentido, abordagem corporal, oficinas expressivo-artísticas e a coterapia são contribuições fundamentadas cientificamente e, portanto, pertinentes, podendo potencializar uma condição de vida mais qualificada. 

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