Não se desdenha o feminismo com o machismo


Não se combate o machismo com o feminismo. Aliás, cá entre nós, ambas as posturas costumam ter mais similaridades do que diferenças, no sentido de “olhar” para o outro gênero como um “oponente a ser subjugado” ou manter esse mesmo olhar somente para as necessidades próprias desconsiderando esse outro.

É obvia a necessidade de uma reflexão séria e profunda sobre a desvalorização que a sociedade faz do gênero feminino. Portanto, o dia 08 de março (Dia Internacional da Mulher) tem seu valor social indiscutível, pois estimula e provoca um debruçar constrangedor sobre a maneira equivocada em relação a  forma como todos nós (homens e mulheres) acolhemos a fêmea humana. Nesse sentido, que me desculpem os colegas do gênero masculino que têm feito piadas, a meu ver sem graça, de que haveria de ter necessidade de um “Dia do Homem”, pois também estaríamos desvalorizados.

Não é preciso uma “lupa” pra perceber que o menino continua vindo ao mundo cercado de “mimos” e perspectivas futuras de conquistas, enquanto a menina, ainda cercada de preocupações por uma possível fragilidade ou falta dessas mesmas perspectivas de vitórias perante o ambiente. No âmbito da família humana, o masculino ainda está ligado à força enquanto o feminino a doçura. Nesse caso, entendendo “doçura” como algo com menos energia ou capacidade de se adaptar ao mundo. Saliente-se que, apesar da racionalidade contemporânea deixar claro este equivoco, ainda estamos contaminados por esta máxima. Por que será?

Como diria Helen Fisher, uma das referências mundiais nos estudos antropológicos sobre os gêneros, “a Natureza sempre triunfa”.  É preciso maior cuidado pra se compreender alguns comportamentos, pois, os instintos, quer queiram ou não, ainda predominam em nosso cérebro e sua maneira de interpretar o mundo.

Por mais que a Cultura indique novos caminhos de convivência, o desenvolvimento do cérebro humano imprimiu algumas características comportamentais inevitáveis (ou, pelo menos, com uma tendência maior em se repetir). O fato é que as leis naturais e biológicas que determinaram a evolução da espécie humana favoreceram essas diferenças de gênero e indicam posturas e comportamentos diversos de sobrevivência no meio ambiente.

Por exemplo, estamos sobre a Terra de forma civilizada (portanto influenciados pela cultura) somente há 1% do nosso tempo por aqui (se estivéssemos há 100 anos, somente há 01 ano nessa configuração social).  Por mais que nossa vaidade e onipotência racional queiram nos enganar, somos primitivos e insipientes nessa arte de convivência social, ou seja, nosso cérebro é um bebe engatinhando e aprendendo sobre esse mundo civilizado. Daí essa nossa convicção de força para os homens e delicadeza para as mulheres, entre tantas outras diferenças que a Natureza tenta nos mostrar sobre o que seria um “macho” e a “fêmea”.

Por outro lado, também houveram dois “processos” culturais na história da mulher sobre a Terra que influenciaram sua trajetória até aqui. O primeiro deles foi a descoberta do arado (instrumento de cultivo agrícula) que favoreceu o homem na aquisição de bens e patrimônio. Este deixou de ser nômade, tornou-se agrário e não mais precisou se aventurar ou se arriscar caçando nas “pradarias”. Pelo contrário, instalou-se em seu território e, por ter mais força física, o macho manuseava esse instrumento com mais eficiência.

Então, a fêmea dedicou-se a cuidar dos filhotes e do cozimento da comida,  assumiu um papel de menor relevância até transformar-se numa espécie de “propriedade” do dono do arado. O segundo foi a descoberta da pílula anticoncepcional que deu novamente a mulher a possibilidade de poder trabalhar e escolher quando ter seus filhotes. Lembrando que essa descoberta foi após a segunda Revolução Industrial, onde, por conta da Segunda Guerra, a fêmea estava voltando ao mercado de trabalho assumindo novos papeis perante a sobrevivência da família, enquanto o macho (principalmente os mais novos) estava no campo de batalha.  Estes fenômenos culturais determinaram outra modalidade de convivência social e estruturação da família.

Seja pela Natureza ou pela Cultura, o fato é que existem diferenças evidentes entre homens e mulheres em todos os sentidos, determinadas de forma evolutiva e culturalmente construídas ou desconstruídas.  É preciso rediscutir nossos papeis sociais respeitando suas singularidades e importância diversificada na construção de uma sociedade. Torna-se imperioso revisarmos nossa postura de desvalorização da doçura, da delicadeza e da subjetividade feminina. Por outro lado, a agressividade, força e objetividade masculina estão ainda supervalorizadas por uma ilusão construída socialmente há milhares de anos de que somos (nós, os homens) donos do arado.

A nova ordem mundial pede a retomada da valorização das diferenças (masculinas e femininas) que não só se complementam como ganham maior importância através do outro. O casal (fêmea e macho) deve voltar as “pradarias do mundo” para construírem juntos suas estratégias de conquistas e de ocupação dos espaços.

Não se desdenha o feminismo com o machismo. Aliás, cá entre nós, ambos (homem e mulher) precisamos, de uma vez por todas, aprender que a Natureza nos deu diferenças fundamentais à nossa sobrevivência e a Cultura uma possibilidade de manuseio ou convivência com elas sem cair na armadilha de priorizar uma ou outra.

Enquanto isso não se concretiza, ainda vamos precisar de muitos “Dias Internacionais da Mulher” para que o constrangimento nos faça abandonar o “arado” lá fora e entrarmos na cozinha buscando uma boa conversa a dois, sem machismo ou feminismo, apenas um casal que busca sua construção conjunta.

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