Mitos e verdades sobre os ansiolíticos/calmantes


É cada vez mais comum a expectativa das pessoas acharem que os remédios resolvam todos os tipos de crises ou situações estressantes do cotidiano. Admito atender quase diariamente pessoas com o discurso: “Tô meio nervoso e sem dormir por conta de problemas em casa ou no trabalho. Preciso de um remedinho pra ficar mais calmo”. Nesse caso, e com a entrevista descobrimos que esta pessoa em algum momento descuidou de sua qualidade de vida e, de forma acumulativa, deixou que os problemas comprometessem sua capacidade de elaboração destes.

É fato que existem calmantes que podem contribuir para uma melhora da situação, facilitando uma boa noite de sono (fundamental, às vezes). Daí surgem às fantasias, mitos e impressões que comprometem o uso adequado destes. Proponho a seguir desvendar alguns destes mitos e verdades a respeito dos calmantes.

1-Todos os calmantes combatem a ansiedade?

Verdade: existe a classe medicamentosa chamada de benzodiazepínicos (também chamados de ansiolíticos). Sua principal ação é diminuir a ansiedade de forma sintomática não atua especificamente sobre a causa. Todos eles induzem ao sono, relaxam a musculatura (com maior ou menor intensidade) e melhoram os sintomas físicos decorrentes da ansiedade.

2- Os calmantes sempre causam dependência?

Mito: o correto é que estas medicações quando usadas por um tempo médio (no mínimo 4 a 5 semanas) ininterruptamente podem causar o fenômeno da tolerância (necessidade de uma dose maior para obter a mesma reação), com consequente dependência química no paciente. Utilizados com bom senso e por um período curto, podem ser retirados sem nenhum problema. Saliente-se que jamais deve-se fazer este uso sem uma orientação médica.

3- Os calmantes podem ser usados na depressão?

Verdade: apesar deste não ter efeito sobre o humor, tristeza e desanimo dos quadros depressivos, esta medicação é muito utilizada nas primeiras semanas do tratamento para depressão, pois, os antidepressivos demoram de duas a três semanas para começarem a fazer efeito. Esta associação inicial (antidepressivos e calmantes) facilita a aderência do paciente ao tratamento.

4- Os calmantes podem causar agitação?

Verdade: algumas pessoas podem ter o chamado efeito paradoxal com um determinado benzodiazepínico. Nestes casos relatam uma sensação de inquietação ou agitação interna.

5- Existem calmantes mais eficazes que os outros?

Mito: algumas pessoas tem uma reação mais satisfatória com uma substância do que com a outra, mas com relação à eficácia podemos dizer que todos podem ser usados, afinal são derivados da mesma substância – diazepan.

6- Alguns calmantes fazem efeito por mais tempo que o outro?

Verdade: sendo eles todos derivados do diazepan, sua permanência no sangue de forma terapêutica (meia vida) é variável, desde o diazepan, clonazepan (meia vida longa) que permanecem por longo tempo, incluindo o lorazepan, alprazolan (meia vida curta) que ficam um tempo menor. Estas características psicofarmacológicas interferem e são utilizadas na prática clínica.

7- Os calmantes podem levar a pessoa a ter Alzheimer?

Verdade: se houver uma história ou tendência familiar à ocorrência da doença, o uso destas medicações deve ser usado de forma mais criteriosa. Respeitar as orientações de uso em curto prazo e com orientações médicas não há risco.  Conforme o custo/benefício do quadro, o idoso também pode utilizar da medicação.

8- Os calmantes não podem ser misturados com bebida alcoólica?

Verdade: há grande risco na associação destas medicações com o álcool e pode causar intensa sedação, excitação ou outros problemas sérios. Sugere-se um período de pelo menos 12 horas, entre eles. Por outro lado, o quadro de abstinência alcoólica pode ser tratado com o diazepan em um ambiente intra-hospitalar e monitoramento clínico rigoroso.

9- Os calmantes causam parada cardiorrespiratória?

Mito: a sedação dessa medicação pode ser revertida facilmente e o risco de parada respiratória não é tão relevante.  O bom senso clínico indica que pacientes previamente portadores de problemas cardíacos devem ser monitorados com maior rigor.

10- Os calmantes são os melhores remédios para a insônia?

Mito: o melhor tratamento da insônia é buscar e resolver sua causa primária. A indução ao sono destas medicações, apesar de ser também uma de suas ações, não é fisiologicamente a mais saudável. Esta saída é paliativa, em curto prazo e provisória (sempre).

11- Existem calmantes que são naturais?

Verdade: existem algumas substâncias fitoterápicas que possuem ação ansiolítica e podem ser utilizadas em quadro bem leves, porém sempre com a recomendação de buscar o tratamento para a causa da tensão, ansiedade ou estresse.

12- Existem alguns calmantes que tem efeito antidepressivo?

Verdade: na prática clínica observa-se que o alprazolan tem um leve efeito sobre o humor. Esta substância não substitui o antidepressivo, se o rebaixamento do humor for uma queixa relevante e trazer grande sofrimento ao paciente, a medicação de preferência não é o calmante.

13- Alguns calmantes são mais fáceis de serem retirados após um longo uso?

Verdade: os calmantes com meia vida mais longa (diazepan e clonazepan) costumam ser menos trabalhoso ao paciente na sua retirada, com menos riscos de uma abstinência significativa. Quando um paciente está dependente dos calmantes com meia vida curta, sugere-se inicialmente substituí-los pelos anteriores (diazepan ou clonazepan) depois de adaptação e fazer o desmame gradual.

Como podem perceber, estas medicações exigem cuidados e práticas clínicas adequadas, portanto, não é inteligente sugerir a alguém que tome um calmante numa situação cotidiana de estresse sem a devida orientação de um profissional de saúde. Elas são sintomáticas e combatem as consequências físicas do problema, estimular ou facilitar esta resolução seria o melhor conselho a ser dado.

 

 

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