A máscara depressiva de cada um


Segundo a Organização Mundial da Saúde, até o ano de 2020 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo,  nestes próximos anos será a patologia de maior flagelo para a humanidade. Este dado epidemiológico assustador nos trás questões instigantes e angustiantes sobre a condição humana na atualidade:

a) porque a depressão tornou-se uma epidemia mundial desse porte?

b) com tantas culturas tão diferentes no mundo, a depressão será igual em todo lugar e atingirá a todos?

c) em nosso cotidiano, a todo instante tomamos conhecimento de comportamentos diferentes em pessoas depressivas, por quê?

d) tem sido cada vez mais comum, algumas religiões atribuírem a falta de religiosidade como causa do transtorno; isso é real?

e) do ponto de vista físico, alguns engordam, outros emagrecem, outros usam drogas ou bebidas alcoólicas, por quê?

 f) sabemos que o suicídio é a pior complicação dessa doença, porque alguns cometem e outros não, mesmo quando a gravidade clinica é a mesma?

Enfim, a depressão é diferente em cada um?

Pode parecer complicado buscar as respostas a estas questões, porém, podemos afirmar que existe um ramo da ciência, a psicopatologia, que oferece conceitos e argumentos bem fundamentados e facilita a compreensão de todas estas perguntas.  Seguem alguns esclarecimentos dos temas colocados.

1. Porque a depressão tornou-se uma epidemia mundial desse porte?

Não é novidade que a principal angustia humana está na sua incompletude e inexorável destino de morrer. Desde que veio ao mundo o ser humano lida com a esperança de (re) experimentar a plenitude da vida intrauterina onde não havia fome, sede, frio, calor, etc. e nenhuma das necessidades impostas pela realidade a serem satisfeitas a partir de seu nascimento. Vive-se a cada dia em busca da satisfação e, inevitavelmente, se aproximando da morte.O mundo é um grande parque de diversão constantemente a nos ofertar seus brinquedos e perigos.A partir do processo evolutivo em que nos tornamos humanos e com a capacidade de reflexão sobre nossa existência, também nos transformamos em indivíduos vorazes, ambiciosos, agressivos e intolerantes à frustração imposta pela limitação dessa realidade. Inversamente proporcional a potencialização da nossa racionalidade e aquisição da tecnologia, comprometemos nossa sobrevivência (re) construindo um mundo pouco acolhedor na maneira de (con) viver (vide as inúmeras guerras e conflitos inventados insistentemente pelo homem ao longo de sua história), destruímos sistematicamente nosso planeta e criamos agrupamentos enormes (cidades) cada vez mais violentos e não naturais. O mundo que (re) inventamos é cada vez mais estressante. Com isso, e após o processo civilizatório do homem, os principais temores que se apresentam no conteúdo dos sintomas dos transtornos mentais são: a morte, ter uma doença grave, sofrer dor física ou moral, a miséria e a falta de sentido existencial. Cá entre nós, o núcleo básico do processo de adoecer depressivo. Não é de se estranhar que após milhares de anos com o homem onipotentemente criando seu mundo dessa forma, iria sofrere ficar deprimido em escala global.

2. Com tantas culturas tão diferentes no mundo, a depressão será igual em todo lugar e atingirá a todos?

A cultura estabelece-se a partir do processo civilizatório, lógico ela é rica em diversidade e diretamente proporcional a capacidade humana de recriação de si mesmo ou seu ambiente.Não podemos esquecer que o cérebro humano está “civilizado” ou em convivência interpessoal sob essa condição a pouquíssimo tempo. A título de compreensão, podemos dizer que se todos os milhares de anos do homem sobre a Terra fossem reduzidos ou sintetizados há 100 anos, estaríamos civilizados somente há 01 ano. Nesse caso, esse cérebro é uma criança engatinhando ou aprendendo a andar num mundo/ambiente cheio de novidades. Ele é principiante, inexperiente e instintivo. A natureza ou sua condição primária é anterior, ela por enquanto “sempre triunfa sobre a cultura” já dizia a antropóloga Helen Fisher a partir de seus estudos em mais de 80 civilizações diferentes. O processo de adoecimento tem seus aspectos culturais, obviamente, porém seu núcleo básico e constitucional está ligado à condição humana natural. A natureza depressiva é única e sempre triunfará sobre a cultura humana (parodiando Helen Fisher).

3. Em nosso cotidiano, a todo instante tomamos conhecimento de comportamentos diferentes em pessoas depressivas, por quê?

O comportamento humano se baseia na história daquele que o pratica, ele é construído e fundamentado a partir da série de dados, aprendizado, experiências prévias ou oportunidades que o ambiente lhe oferece. Também por conta da evolução humana, o animal homem aprendeu a criar atitudes e posturas reativas ao seu meio, porém obviamente sem abandonar todo este alicerce anterior que é a sua história.Não é possível compreender um comportamento qualquer (por mais estranho que seja) sem conhecer a história daquele que o pratica. Além disso, cada um interpreta e absorve as exigências impostas pelo meio a sua maneira, com esta capacidade limitada as características constitucionais descritas nas perguntas iniciais quanto à natureza.

4. Tem sido cada vez mais comum algumas religiões atribuírem a falta de religiosidade como causa do transtorno, isso é real?

Considerando o “mistério” de um dos principais temores do homem sobre sua existência, a própria morte, é compreensível que ele tenha criado culturalmente as religiões como forma de lidar com sua incapacidade em acolher verdadeiramente sua finitude. Vamos lembrar que segundo a psicanálise, em nosso inconsciente não existe a “mortalidade” enquanto experiência subjetiva. Por outro lado, a espiritualidade, adquirida com a evolução da espécie humana deu-lhe a capacidade de transcendência e consequente experiência de contato com dimensões que vão além da realidade normal ou natural da vida humana. Através dessa transcendência, cabe ao homem, em várias situações de sofrimento lidar com a dor profunda de perda da sua energia vital. Se pensarmos que os portadores da depressão se referem à sensação que ela trás como “a dor da alma”, é pertinente concluirmos que buscar na “religião” um alento para este processo pode ser uma saída. Cabe salientar que a questão é a espiritualidade ou experiência de transcendência e não a forma cultural de vivenciar essa capacidade, ou seja, as religiões em si.

5. Do ponto de vista físico, alguns engordam, outros emagrecem, outros usam drogas ou bebidas alcoólicas, por quê?

A constituição corporal de cada um faz parte do tripé básico que define a personalidade (temperamento, caráter e constituição). Sendo que o temperamento e essa constituição “o conjunto de propriedades morfológicas, metabólicas, bioquímicas, hormonais, etc. são transmitidas principalmente (mas não apenas) pelos mecanismos genéticos”. Em nossa forma de ser e reagir no mundo está também nosso corpo e suas reações peculiares. Para alguns a perda de energia vital pode leva-lo fisicamente a querer comer mais, outros comer menos; atrasar o metabolismo engordando, outros, acelerar emagrecendo; há até aqueles que usar outras substâncias psicoativas amenizam o sofrimento físico e outros adquirem doenças físicas. Cá entre nós, o corpo também está chorando na depressão, mas o seu choro é sempre peculiar, individual e determinado pela hereditariedade que o consolidou. Nesse caso, sempre haverá as características familiares (ou dos pais) que emprestaram a carga genética ao depressivo, em sua forma de adoecer fisicamente.

6. Sabemos que o suicídio é a pior complicação dessa doença, porque alguns cometem e outros não, mesmo quando a gravidade clinica é a mesma?

O suicídio, independente de sua maneira, é sempre um “pedido de socorro” ou uma forma drástica de aliviar o sofrimento do depressivo. Nesse caso, a vivência desse sofrimento e sua opção no lidar com ele estão diretamente relacionados à maneira do indivíduo suportar, elaborar e vivenciar sua dor. Ele pode conviver com a ideia de suicídio por algum tempo e, apesar de causar-lhe sofrimento, o alívio vai sempre depender de sua história de vida. Há pessoas que passam longo tempo se suicidando gradativamente; há pessoas que se arriscam impulsivamente; há pessoas que fazem questão que os outros percebam seu sofrimento, enfim conforme sua história cada uma constrói sua forma de aliviar esse sofrimento. A depressão só traz a intensidade da dor, mas o doente transforma seu alívio em comportamento, conforme suas experiências de vida.

A depressão é diferente em cada um?

A doença está instalada em uma pessoa e condicionada a forma de ser desse sujeito, ou seja, sua personalidade. Esta palavra provém do termo persona, aquelas famosas máscaras do Teatro Grego que cobriam o rosto dos atores ao representarem diferentes personagens. Por outro lado personare do latim significa o ressoar por meio de algo. Em síntese, personalidade seria a forma como o ator/sujeito faz soar a sua voz, atua e interpreta sua história através das diversas máscaras que se utiliza ao longo do caminho. Ao mesmo tempo em que se mostra e comunica com o mundo, também se esconde ou lida com sua dor no palco da vida.

A depressão é como uma máscara comum ao homem pelas suas condições, mas cada um tem a sua e dela faz seu proveito próprio ou sofre.

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