Família é a melhor coisa do mundo, pena que dure muito tempo.


Essa história de “civilização humana” tem muito pouco tempo de existência. Os cientistas fazem uma projeção de que somente 1% do tempo dos homens sobre a Terra foi vivido nesta condição. Ou seja, se nós humanos estivéssemos nesse planeta há cem anos, estaríamos civilizados há somente um ano. Portanto, quer queira ou não, essa história de sermos seres racionais e convivermos sob regras de uma sociedade tem pouquíssimo tempo.  Somos, literalmente,  principiantes nessa questão! Então, sejamos humildes: nosso cérebro está muito mais adaptado para atender aos nossos instintos primitivos e nada preparado para ser eficiente quanto à ambivalência e necessidades do chamado meio social civilizado.


Minha intenção, ao fazer estas colocações iniciais, é fundamentar meu raciocínio antes de me aventurar a falar de uma coisa que muitos poucos de nós se atrevem a questionar de maneira atenta e imparcial: a família. Raríssimas vezes alguém admite que outra pessoa fale algumas “verdades” de sua família sem sua permissão (que quase nunca é dada). Por exemplo: quem suportaria, sem se incomodar, que alguém falasse mal de sua mãe? Mãe é algo inatingível, figura quase santificada.
Antes de prosseguir quero deixar claro que concordo plenamente que família é imprescindível para o estabelecimento da sociedade, sendo inclusive uma dinâmica de convivência grupal fundamental para a nossa sobrevivência. Essa é a mais pura realidade... Cá entre nós, “família” é indispensável. Sou adepto, inclusive, daqueles que dizem que os “melhores” cidadãos ou pessoas com sucesso e ascensão social são aquelas cuja estrutura familiar lhes foi favorável. Sendo assim, convenhamos; a Natureza usou mais uma vez de sua sabedoria ao nos impor este agrupamento.


Vejamos: criou a função chamada “mãe”, cujo comportamento é de uma dedicação divina. Acolhe-nos e está sempre ao nosso lado nos primeiros passos na vida. Produz um tipo de alimento especificamente feito para as necessidades do filho.  A esta função, acrescentou outra que chamamos de “pai”, cujo conhecimento das regras de convivência é inconfundível, nos ensina o que pode e o que não pode ser feito, tem um sentido de proteção inquestionável, de vez em quando até nos frustra, mas é somente para o nosso bem, afinal precisamos aprender a estar com e respeitar as outras pessoas. Há ainda uma terceira função, a de “irmão”, cuja aliança nos dá alento, nos protege da solidão, nos convida a brincar e a compreender (ou não)“papai” e “mamãe”. Ainda, de quebra, erra e age como a gente. Não é bárbaro?!


O processo é instintivo, natural e perfeito! Os pequenos filhotes vêm ao mundo, são recebidos por “mamãe”, educados por “papai” e aprendem a “brincar” e descobrir suas limitaçõescom os “irmãos”.  Após algum tempo viram adultos e podem atuar nesse mundo. Se observarmos os outros animais (mamíferos de preferência) veremos como esta lógica é inabalável. Aqueles que, por algum motivo, essa família não consegue preparar, o mundo se encarrega de “selecionar” e ensinar o resto. Porém, olhando mais atentamente para essa dinâmica entre nós, humanos, a regra parece andar falhando, pois apesar da atuação da família, muitos filhotes se mantêm eternamente filhotes e alguns até se tornam adultos-problemas.


O que se vê por aí?! Os seres humanos andam sem princípios, limites e conhecimento de suas próprias potencialidades ou fragilidades. Estão vorazes por resultados rápidos e fáceis, com alianças mal construídas e sem respeito pelo espaço do outro.
A meu ver, é preciso reassumir, urgente, uma postura humilde retomando as regras da Natureza: os filhotes devem ser criados para o mundo, portanto é preciso, o quanto antes, estimulá-los a lidar com as inevitáveis limitações da realidade, é preciso conviver com o “não” sempre que necessário, sem incentivar a fantasia de harmonia e satisfação plena nesse mundo, ensiná-los a admitir e assumir as rédeas de suas próprias existências sem atropelos ou desrespeito pelos companheiros de vida. Buscar a vitória sem desconsiderar a possibilidade da derrota e da perda  com um aprendizado. Portanto, não se pode negligenciar a ética na convivência com o outro.  A compaixão pelo semelhante tem que ser a palavra de ordem, jamais a conquista ou a satisfação a qualquer custo. Há que se ter cuidado sempre para não destruir sistematicamente nosso habitat social.


Enfim, se você analisar com cuidado, verá que um dos nossos principais problemas foi ter eternizado o grupo familiar. Queremos ter papai e mamãe todo o tempo de nossas vidas, mesmo quando não somos mais tão filhotes assim. E, por conta disso, existem pessoas, já com idade para serem adultos, sendo tratadas como crianças pequenininhas e frágeis. Estão no mundo sem responsabilidade, maturidade e liberdade suficiente para conviver e participar da sociedade de maneira construtiva.
Talvez a humanidade tenha se complicado por não obedecer a uma das regras básicas da mãe Natureza: tudo tem um começo, meio e fim.  Nesse caso, sinto muito, tenho que dizer: a família é uma das melhores coisas criadas pela Natureza, porém do jeito que nós humanos a estruturamos, estamos fragilizando as pessoas e deixando com que elas permaneçam na condição infantil muito mais tempo do que o necessário.  E aí, também me sinto obrigado a concordar e parodiar Cazuza: “família é a melhor coisa do mundo... pena que dura muito tempo”.


Concluindo, acredito que a saída seja convivermos nesse grupo por um tempo determinado e posteriormente nos lançarmos sozinhos no mundo com todos os riscos e possibilidades.  Não mais procurando e desejando “papai e mamãe”.
Então, na arena cotidiana,aos pais restará a confiança/esperança de ter dado o máximo de si, aos filhos a saudade e a gratidão pelo que foi possível de ser aprendido e a todos um mundo fascinante onde as experiências trocadas darão à chance de melhor sobrevivência.
Na experiência de encontros futuros cria-se a possibilidade de novas relações interpessoais não mais como pais e filhos, mas sim como adultos aprendizes e pessoas autônomas que se respeitam e se (re) inventam humanamente melhores.

 

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