Eu, as artes e a psiquiatria


Infelizmente, a configuração social atual proporciona um estresse constante, frustrações cotidianas predominantes e pouco espaço para a troca emocional saudável entre as pessoas. Por outro lado, entendo que a arte seja um dos melhores caminhos para expressão e criação dessa troca rejuvenescedora. Cabe salientar que aprendi, certa vez com um poeta, que tanto o expectador como o executor tornam-se artistas num encontro onde há uma manifestação artística entre eles.  É exatamente assim que tenho refletido sobre essas experiências ao longo desses anos. Essa reflexão foi fruto de situações e opções feitas durante minha  escolha profissional. Nesse caso, abordar esse tema, “a influência das artes para a saúde mental das pessoas”, tem pra mim uma questão bastante pessoal e íntima. E, a despeito da existência de tantos e importantes estudiosos sobre essa matéria (em nosso país, a psiquiatra Nise da Silveira talvez seja nossa grande mestra), considero relevante pontuar minha crença pessoal no valor dessa proposta para as pessoas. Ou seja, eu “cresci”, enquanto pessoa, com essa convicção.

Tudo começou quando estava na graduação em Medicina.  Houve uma época em que não sabia qual especialidade fazer ou em qual delas me sentiria acolhido em meus anseios particulares. Nessa ocasião, fazia teatro amador (grupo Benvirá) e participava de um grupo musical (grupo Vento Viola), aliás, desde adolescência comecei a me aventurar “fazendo artes” (além das costumeiras travessuras de um moleque inquieto e curioso). Antes, aos 12 anos, comecei pretensiosamente a escrever o primeiro livro (aliás, já falei disso em outro artigo), aos 14 participei do meu primeiro grupo musical (grupo Segunda Feira) e também comecei atuar em peças teatrais para eventos da escola. Cá entre nós, acho que era atrevido e gostava de aparecer (perdoe-me a pretensão, justifico-me por conta das boas intensões). O fato é que com esse histórico anterior, o jovem de 20 anos (já no terceiro ano de Medicina) não conseguia conceber ter uma profissão onde não pudesse usar da linguagem artística na compreensão diária do seu cotidiano. E antes que me questionem, porque não fazer algo diretamente ligado às artes, já respondo: ser médico e ajudar pessoas (desde infância)  era tão forte quanto essa ligação com as artes. Sendo assim, escolhi a psiquiatria como uma possibilidade de conhecer os mistérios da mente humana e uma forma de conciliação com a necessidade de dialogar com as artes nesse processo. Concluindo, lidar, fazer, criar ou estar no universo artístico é, a meu ver, uma excelente estratégia de potencializar e compreender a saúde mental do ser humano.

Atualmente, inclusive, há vários estudos científicos que comprovam o quanto o funcionamento cerebral pode ser influenciado pela música,dança,teatro e/ou as artes plásticas na educação infantil. Os bons educadores sabem que colocar as crianças pra “fazer artes” não é só uma questão de entretenimento, e sim proporcionar seu amadurecimento mental com qualidade e eficiência. Acredito que, intuitivamente,fiz minha escolha profissional de forma pertinente e gosto de pensar que as artes me levaram á psiquiatria.

Concluindo, não tenho dúvidas o quanto a pessoa, portadora de um transtorno mental, pode se beneficiar do fato de se expressar através das artes. É na linguagem artística que podemos elaborar perdas, compreender conflitos, angústias e dúvidas sobre o cotidiano, ou até mesmo se reconhecer, reinventando-se na crua realidade do dia a dia que “oprime”, na poesia do“estar vivo”. Fazer do sofrimento diário a matéria prima (inspiração) de uma poesia, música, dança, pintura, escultura, ou qualquer produção artística é elaborar a vida em sua plenitude, ou seja, haja dor ou delícia, uma energia se faz presente e pode proporcionar boas trocas e movimento. ´

Sendo assim, só me resta manifestar eterna gratidão aos grupos “Segunda Feira”, “Benvirá”, “Lama”, “Vento Viola” e “3 na Sexta”,que me introduziram na “mágica” experiência do encontro artístico com alguns expectadores, além de proporcionar a possibilidade de potencializar a saúde mental de todos, além da minha.

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