Entre equívocos e certezas


Há uma máxima em nossa cultura de que mentir é coisa feia. Aquele que diz a verdade merece perdão, sendo o mentiroso um desacreditado e desvalorizado por todos. Portanto há uma tendência comum em valorizar a verdade no nosso convívio social. Por outro lado, isso não se dá sem um mínimo de sofrimento. Dizer a verdade pode ser complicado, se não houver a possibilidade de umas mentirinhas de vez em quando. Por quê?

Obviamente que a maioria dos leitores irá dizer que a verdade é sempre melhor; mentira tem perna curta; verdade dói, mas sempre vale à pena; e por ai vai... Mas é preciso, antes de qualquer pré-conceito, compreender melhor este fenômeno humano.  De fato, existe sempre uma verdade e uma mentira sobre o que se vive, mesmo quando não se percebe claramente onde está uma ou começa a outra.
Cabe antes esclarecer que aqui me refiro ao ato deliberado de mentir, portanto, falo sobre a opção consciente de esconder algo sobre o que se viu ou ouviu. Neste caso estou desconsiderando, por ora, as interpretações equivocadas, os enganos ou mesmo aquele julgamento precipitado. Em suma, estou me referindo ao fato de saber de alguma coisa e querer dizer diferente à outra pessoa por vontade própria.Ressalto que tenho uma convicção a respeito da verdade: não há porque se discutir se alguém deve saber a verdade, obviamente que sim; porém é preciso muita inteligência, generosidade e honestidade em se tentar descobrir quando, onde e como esta verdade poderá ser dita.

Após algumas experiências com situações em que uma verdade podia ou devia ser dita a outra pessoa,pude perceber o quanto o ser humano não sabe, não vê e não sente as condições do seu interlocutor. É duro, mas tenho que novamente salientaro quanto somos míopes quando temos que conviver com alguém. Atropelamos... Sem eira nem beira e “vomitamos” uma série de informações sobre as coisas, esquecendo que em tudo e para tudo existem pontos de vista diversos – todos os pontos de verdade – que dependem da referência.Os casais, os pais, os irmãos, os amigos, os colegas, os adversários e outros que “sentam para conversar”, entram sempre em uma disputa para ver quem convence quem. Pergunto: qual foi a última vez que você conseguiu sentar na frente de alguém, ouvi-lo terminar um parágrafo sem interrompê-lo, sem caras e bocas para depois falar sua frase inteira sem projetar ou engolir culpas e sentindo que os dois pontos de vista completos estavam sendo expostos? Em caso afirmativo: parabéns, você soube conversar, porém se admitir não ter conseguido, pode acreditar, muitas verdades foram atropeladas.

Cá entre nós, sejamos francos, na maioria das vezes costuma ser assim, ou seja, não sabemos conversar.Proponho, seja honesto, se lhe fizerem uma pergunta com todas as letras, caras e olhares, não hesite. Se tiver dúvida, pergunte novamente ao outro o que quer saber e aí diga a verdade, ou seja, o que sabe o que vê e o que sente. Mas também considere o fato de que podemos nos equivocar sem nem perceber. Eis aí o principal risco: acreditar que temos a verdade absoluta sempre a nosso dispor.Considerando isso, é claro que a fofoca é sempre destrutiva e desrespeitosa, pois o fofoqueiro não espera a pergunta, ele impõe sua versão das coisas, portanto não vê realmente o outro. Ele é um míope que se acha portador de um binóculo da verdade. E o que é pior, por inveja, distorce até o que realmente sente. O fofoqueiro quer (e tem medo) pra si aquilo que fofoca do outro.  E o que é pior, há indícios de que já se viu ou sentiu como o outro.

Portanto, conviver verdadeiramente com alguém significa ter sempre um segundo olhar sobre as mesmas coisas. Neste caso, todos os dias desta convivência podem ser “dia da verdade” se um (re) conhecer, (re) ver e sentir o outro com reciprocidade e comunicação clara, permitindo e buscando, a qualquer custo, a liberdade de ser em ambos.Caso contrário, ou percebendo e admitindo sua limitação em relação ao fato, pelo menos, não se esqueça de que há sempre uma verdade e uma mentira humanamente presente no cotidiano.Sendo assim, entre equívocos e certezas, quem sabe essa proposta não o torna, pelo menos, flexível e acolhedor com as limitações do outro?

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