Donos do próprio nariz


Talvez a capacidade de ir e vir, ser e estar, fazer ou não fazer, ou seja, escrever uma trajetória/biografia baseada principalmente nos próprios desejos seja a condição primordial para se ter a tão almejada qualidade de vida. Porém, nos moldes como estabelecemos a civilização humana, isto tem sido cada vez mais desgastante e difícil de ser alcançado. Haja criatividade para se adaptar os impulsos naturais aos valores culturais. Transformamos a cobiçada autonomia num complexo jogo de xadrez com a realidade.Isto porque queremos ganhar cada vez mais, sermos reconhecido e contemplado em todas as nossas necessidades e jamais frustrados; seja pela sociedade, pelos familiares, amigos, parceiros, por quem amamos ou por outro qualquer. Ansiamos por prazer e repudiamos o desprazer.

Até ai tudo bem... Afinal fomos “criados” para isso. Não se deve esquecer que viemos ao mundo para sermos satisfeitos. Que assim seja!... Mas há que preço?! Ou com quais estratégias? Nesse caso, cabe sempre a reflexão sobre os caminhos escolhidos com este propósito.  E para obtermos melhores respostas é preciso cuidado em fazer as perguntas de maneira mais adequadas. Alguns mitos do dia-a-dia devem ser desmistificados, por exemplo: a corrente convicção de que a independência é indispensável me parece ilusória. A questão não é buscar a condição independente, até porque sempre estamos dependendo de algo ou alguém. Somos e estamos no mundo em relação ao outro. Acredite! Ninguém é uma ilha autossuficiência. A grande sacada é ter uma dependência criadora, onde se possa (re) aprender a cada instante, propor e aceitar trocas, negociar com a firme intenção de construir juntos. Confie! Todos somos ilhas de ofertas com pontes por se criar ou transpor.

Nessa questão, em se tratando de relacionamento interpessoal, sugiro que preste atenção em si mesmo e perceba se há alguma sensação de estar ou sentir-se refém de alguém. Havendo este sentimento, desperte, pois sua dependência pode estar mal estabelecida. Empregado não pode ser refém do patrão, aluno não pode ser do professor, os jovens não podem ser dos mais velhos e nem vice-versa, os filhos devem ser cada vez menos dos pais, os amigos nem pensar, os namorados nem o diga, assim como a esposa não é do marido, muito menos ele dela. Ou seja, os parceiros de projetos de vida devem buscar evitar essa condição na relação. Dependência é sempre via de mão dupla, onde ambos devem crescer e se satisfazer.

Outro mito, comum em nossa cultura, é a necessidade do dinheiro como condição sine quae non, ou seja, onde o poder de compra e o pagamento por aquilo que se deseja nos conduzem à nossa autonomia. Cuidado! O direito de consumir pode ser uma possibilidade de satisfação, não há como negar... Mas será que temos a consciência do que estamos consumindo e por quê? Você tem clareza do quanto o “produto cobiçado” lhe trará de satisfação? Sabe o preço em espécie, em afeição, e o quanto de tempo e energia que está pagando por ele? Na grande maioria das vezes pouco se sabe.  E quanto menos descobrir ou se dar conta sobre os reais motivos e gastos necessários, mais se paga desproporcionalmente em relação à satisfação que o produto lhe dará. Portanto fica caro! É dinheiro jogado fora!

Mais um mito a ser desnudado é o do poder. Muitos acreditam que quanto mais poderoso se é mais autônomo caminhamos por aí. Esse, talvez seja um dos mais ilusórios. Sem dúvida, o poder eleva o indivíduo na pirâmide social, colocando-o em um ponto mais alto até onde pode olhar para muitos abaixo de si. Quem tem poder está num “podium” e nele só “pode um”. Enfim, fica-se solitário! Por outro lado, talvez o grande barato, ou a grande sacada, esteja no poder "de conversar", "de trocar", "de somar", "multiplicar e (con) viver onde podem todos". Em suma, permanece-se no coletivo! É poder de estar com alguém!

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