Depressão não é uma doença única... São várias.


Atualmente é cada vez mais comum às pessoas procurarem ajuda profissional acreditando ser portadora de algum transtorno mental. Se por um lado isso estimula e facilita a iniciativa de buscar ajuda, por outro favorece rótulos antecipados e nem sempre adequados. A internet potencializou a divulgação destas informações clínicas e, em certo sentido, tem contribuído para este fenômeno. Alguns quadros clínicos trazem especial curiosidade às pessoas e muitas após uma leitura (nem sempre em um site adequado ou que traga dados apropriados) prévia agendam sua consulta e já colocam inicialmente: “estou procurando ajuda por que tenho depressão e preciso de um remédio”.

Cabe também lembrar que os estudos epidemiológicos indicam que até 2030 a depressão será a doença mais comum do planeta.  Ela estará no topo da lista de dificuldades das pessoas e, nas próximas duas décadas, será o problema de saúde mais presente em seu cotidiano.

Mas, cá entre nós, a depressão, também chamada de transtornos do humor ou afetivos, é uma doença única? Aparece sempre da mesma forma? Os sintomas e sua evolução são sempre os mesmos?

Não! Sendo assim, vamos pontuar de uma maneira geral quais as possibilidades de aparecimento destes transtornos e suas evoluções clínicas.

Os transtornos do humor (ou depressões) podem surgir em todas as faixas etárias, de criança em tenra idade até os mais idosos. Os sintomas geralmente são próprios do momento de vida de seu portador. Nesse caso, apesar de ser o comprometimento do animo (humor) com perda da energia vital o principal núcleo patológico presente, nem sempre a queixa principal será uma vontade de sumir, um desinteresse generalizado ou até desejo de morrer para aliviar o sofrimento. Por exemplo, em crianças ou pré-adolescentes pode estar presente somente uma irritabilidade, intolerância nas relações e prejuízo do convívio social. Os pequenos podem até deixar de comer ou não querer brincar, mas nem sempre falarão em morte ou vontade de sumir.

Às vezes até, o único indício de que algo está errado é uma frequência maior de acidentes domésticos, ou no meio social, com dificuldades de frequentar a escola ou as brincadeiras com os amigos. Alguns adultos podem não falar em morrer, mas constantemente estão com algum problema de saúde, cuja evolução do tratamento não é satisfatória, mesmo que o médico esteja utilizando cuidados adequados. Aqui o corpo parece manifestar o sofrimento e não responde as propostas terapêuticas sugeridas, ou seja, ele “chora” indicando a tristeza, mesmo que, no discurso, o doente não admita essa emoção. 

A irritabilidade nos mais jovens e as doenças com evolução atípica nos adultos podem ser sintomas depressão, mesmo que não haja a manifestação clara de tristeza ou sofrimento emocional explícito.

Saliente-se que os quadros bipolares, ou seja, aquelas pessoas que ora estão em fase depressiva e ora em fase eufórica também é um tipo de depressão, o chamado transtorno bipolar. E estas, quando eufórica relatam uma sensação de exagero, são elétricas, hiperativas, inquietas, falantes, aceleradas, portanto exatamente o contrário do que se percebe num depressivo. Aqui há uma alegria exagerada, desproporcional que coloca em risco, da mesma forma, a integridade física de seu portador pelo descuido consigo mesmo. Além disso, vamos lembrar que nestes quadros, às vezes, aparecem ideias estranhas, comportamentos bizarros, sendo que o doente pode admitir ouvir vozes ou ver coisas que não existem indicando a presença do que chamamos de sintomas psicóticos. Este quadro tem vários níveis de gravidade, desde o mais leve até o mais grave que o profissional deve avaliar e orientar quanto aos cuidados mais, ou menos, intensivos e constantes.

Mesmo o quadro depressivo clássico pode aparecer como uma depressão maior (com gravidade clínica mais relevante e proporcional necessidade de cuidado) ou menor (mais leve ou branda quanto aos sintomas). Pode também surgir como um episódio único (seja depressivo ou eufórico) com algumas semanas até alguns meses ou ser recorrente (vários episódios ao longo de anos). Existem até os quadros chamados de persistentes, ou seja, aqueles com duração de sintomas há, pelo menos, dois anos, porém de intensidade leve. Apesar de não haver ideias de morte ou desejo de sofrer, o portador mostra-se em sofrimento constante, com dificuldades em concluir seus projetos, baixa produtividade e insatisfação generalizada. Da mesma forma pode haver a oscilação entre a euforia e depressão leves com duração de aproximadamente dois anos. São as chamadas distimia ou ciclotimia.

Por último, confirmando a diversidade de síndromes clínicas possíveis, ainda podem aparecer os quadros decorrentes de outras doenças físicas (disfunções hormonais, metabólicas, doenças autoimunes, etc.).  Há também os quadros que surgem como efeitos colaterais de algumas medicações (por exemplo, anti-hipertensivos). Ou seja, são transtornos do humor em decorrência de fatores externos ou secundários. Além disso, cabe ressaltar que é comum haver o surgimento da depressão juntamente com outros transtornos mentais (como de ansiedade) e outras doenças (como cardíacas). No caso, haveria o surgimento e evolução de duas doenças concomitantemente, sendo este o processo chamado de comorbidade.

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