Ciúmes, como prova de amor, é uma grande bobagem.


Já comentei em outro artigo (Fuja do amor-romântico) os problemas que os parceiros amorosos “criam” ou produzem sistematicamente em sua convivência desde que esse tipo de amor foi associado ao casamento em nossa cultura. Ou seja, essa máxima ilusória da possibilidade da existência da nossa “cara metade” no mundo nos afasta da realidade da condição humana de incompletude inevitável. Consequentemente, também criamos algumas ideias culturais, no mínimo, esdrúxulas. Por exemplo, “ciúmes é prova de amor”. Mentira! Quer você queira ou não. Basta compreendermos a gênese do surgimento desse sentimento para ficar claro o quanto estamos enganados nessa questão. Ciúmes é prova de raiva e medo em relação ao outro.

Vejamos o surgimento dessa experiência pela primeira vez e o quanto ela fica marcada em nossa história: há um momento em nossa convivência com nossos pais (ou cuidadores da/na infância) que somos excluídos por eles pra que possam ficar sozinhos e somente entre eles. Nesse caso, temos uma sensação enorme e desagradável de tensão acompanhada por outra, não menos ruim de inquietação do que possa acontecer conosco, enquanto estivermos sozinhos e sem eles. Temos reações das mais diversas até que por algum motivo (que ainda não sabemos) eles voltam a cuidar de nós ou estarem próximos.  A questão é que isso acontece cada vez mais frequente e, inclusive, por mais tempo. Choramos, berramos, pedimos socorro, inventamos histórias similares as anteriores em que eles ficaram mais preocupados conosco, ou até representamos sensações, que quando presentes, eles não conseguiram deixar de cuidar de nós, e o melhor, ainda mais atenciosos conosco. Tudo porque não suportamos ser o “terceiro excluído”, ou seja, papai e/ou mamãe preferirem ficar um com o outro e nós de fora. Que decepção! Esclarecendo, ou colocando nomes que só iremos aprender bem mais tarde, sobre os fenômenos: há um momento da nossa infância que temos raiva de papai ou mamãe por que eles estão juntos e nós não. Isso dá muito medo de perdê-los, pois acreditamos que sem eles não sobreviveremos. Cá entre nós, aprendemos a ter ciúmes.

Assim sendo, e considerando algumas reações que temos na infância, bem como os adultos lidam com elas, poderemos ficar mais ou menos tranquilos com esse desconforto de “ser excluído”. Ou seja, mais seguros ou menos, de que o outro não só faz isso como, ás vezes, fica muito satisfeito e feliz mesmo sem a nossa presença. Sim, meus caros, é assim que ficamos decepcionados com o outro querer existir sem a nossa presença. E ai, criamos a pessoa ciumenta: insegura, mais ou menos possessiva e carente. Inevitavelmente todos nós a temos dentro de nós, desde uma criança pequenina que a gente até brinca, apesar da estranheza, e não nos atrapalha, até uma velha rabugenta e mal humorada que nos deixa agressivo e, cá entre nós, muito chatos.

 Considerando o tal do amor-romântico que insiste em nos fazer acreditar/sentir que faz de conta que amamos o outro sobre todas as coisas e o outro, por outro lado, também acredita ou age como se assim o fosse, dá pra imaginar a força que estamos dando a essa experiência. Daí a bobagem: “ciúmes é prova de amor”. Doce ilusão, não acha?! A realidade é bem outra. Talvez ai esteja uma possibilidade de compreendermos o que pode estar acontecendo conosco na relação com nosso parceiro amoroso. Qual é realmente a realidade dos fatos?

 1 - Primeiro fato: sim é muito bom estar com o outro, a vida ganha outro sentido e é mais prazerosa, mas, jamais ele conseguira nos agradar por inteiro, afinal ele é o outro.

 2 - Segundo fato: ele, ás vezes, não vai estar conosco e pode até estar bem satisfeito sem a nossa presença. Cabe a cada um de nós contribuirmos para que os momentos juntos possam também ser agradáveis.

3 - Terceiro fato: sim, tenho raiva de ele ser o outro e longe de ser o que imaginei, além disso, e por ser satisfatório, tenho medo de perdê-lo, sempre.

 Crescemos e continuamos no mundo sem papai e mamãe, e nem por isso deixamos de existir, ser o “terceiro excluído” não é uma sentença de morte e obviamente que ao termos outras experiências com parceiros amorosos isso também vai acontecer. Somos adultos e pessoas inteiras, portando não precisamos de “caras metades” e podemos perfeitamente viver sozinhos e satisfeitos. E se por algum motivo, o outro não estiver conosco, a vida sentenciosamente segue.

Concluindo, considero o aprendizado que tive com tantas pessoas e suas histórias de vida em minha prática clínica. Quanto mais tranquilamente uma pessoa vivencia a experiência de “ser ou estar como o terceiro excluído” nas relações amorosas, mais ela se torna um amante maduro e nada chato de conviver. 

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