Afinal de contas, o que é essa tal "autoestima"?


Algumas palavras do universo da Psicologia podem cair no senso comum e perder um pouco de sua essência conceitual.  Podem ficar banalizadas, sem consistência ou até mesmo equivocadas na forma de usá-las, por exemplo, autoestima. Diariamente as pessoas se referem a “baixa autoestima” como causa pra quase todo sofrimento mental. Alguns chegam a afirmar que uma pessoa não teria autoestima por conta de seus comportamentos no cotidiano. Não é bem assim, o comprometimento pode até haver, mas a falta é improvável, exceto em quadros depressivos profundos ou alguns transtornos psicóticos bem graves. A autoestima está sempre presente em todos os sujeitos e desde os primeiros meses de vida.

 O que seria então este fenômeno na condição humana?

Os primeiros estudos sobre autoestima foram realizados por William James, psicólogo de pensamento funcionalista, que estudava o quanto o organismo se utilizava das funções da mente para se adaptar ao meio ambiente. O conceito de autoestima foi criado por Stanley Standal (aluno de Carl Rogers) na década de 1950 e segundo ele, esta seria uma necessidade adquirida. Vale lembrar que este fenômeno foi abordado por diferentes autores e conforme a abordagem teórica acentua um ou outro aspecto do mesmo.

Autoestima corresponde à importância que o indivíduo atribui e faz de si mesmo em diferentes situações e eventos do seu cotidiano a partir de um determinado conjunto de valores eleitos por ele como positivos ou negativos. O que pensa e sente em relação a si mesmo, e sua relevância se deve ao fato de ela ser o fundamento da capacidade do ser humano de reagir ativa e positivamente às oportunidades da vida, o que reflete na forma como as pessoas aceitam a si mesmas, valorizam o outro e projetam suas expectativas.

 Como surgiu esse fenômeno?

Desde os primeiros dias de vida o ser humano recebe cuidados indispensáveis a sua sobrevivência que lhe dão sensações satisfatórias ou insatisfatórias.  Ainda criança, o indivíduo passa por diversas dificuldades e obstáculos que irão fazer parte do seu amadurecimento e de sua percepção de si mesma em oposição ao mundo externo. A criança, aos poucos, toma consciência de si mesma e desenvolve (ou é estimulada pelas sensações prazerosas de cuidado) uma necessidade de amor ou consideração positiva, necessidade universal em todo ser humano. O pequeno ser descobre que os afetos são fonte de satisfação e aprende a sentir a necessidade de afeição. Ao receber a consideração positiva ou negativa ele desenvolve sua autoestima.

As pessoas significativas para a criança têm uma forte influência sobre ela e a formação da imagem que tem de si mesma, bem como o rumo de sua vida. Os pais através de avaliações, às vezes positivas, outras vezes negativas, quanto ao comportamento da criança, acabam por determinar quais sentimentos e ações são aprovados ou recusados. Ela é levada a aprender regras para o seu próprio bem, mas que no futuro podem se tornar pontos inibidores da personalidade.  A autoestima tem características especificas:

1) a satisfação da necessidade baseia-se em impressões ou percepções do outro, que se tornam experiências vividas;

2) ao perceber que satisfazendo a necessidade de estima dos outros satisfaz a sua, se torna uma necessidade recíproca, ou seja, satisfazendo o outro, a sua necessidade por consequência também é satisfeita;

 3) esta necessidade é latente e reforçada pelas experiências sociais e valoração dos outros, ou seja, os valores das experiências dos demais unem-se aos próprios valores do indivíduo.

É aí que a criança pode entrar num conflito, pois ela acaba por excluir as experiências reprováveis, mesmo que para si estejam corretas. É nesse momento que ela tenta ser o que os outros querem ao invés de ser como é. E assim, durante a infância, o conceito de si mesmo se torna cada vez mais distorcido pelas avaliações dos outros. Dai a necessidade no adulto em agradar os outros ou ser o que as pessoas esperam que seja.

Este processo pode ser acentuar a ponto de comprometer o amadurecimento adequado do sujeito, quando ele perde sua espontaneidade e originalidade na forma de ser e estar no mundo. Torna-se somente aquilo que esperam dele. Quando as pessoas perdem de vista seu potencial inerente tornam-se retraídas, rígidas e defensivas, sentindo-se ameaçadas e ansiosas; têm sua vida direcionada pelo que os outros querem e valorizam, sentindo-se desconfortáveis e inquietas. Em algum momento, podem perceber que não sabem realmente quem são e o que querem pra si mesmas.

A autoestima é um fenômeno complexo, fundamental e esta relacionado à forma como foi educado o sujeito.  Cuidado na educação, pois pode-se perder a vida no sentido da originalidade e potencial criativo.

 

 

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