Quando os afetos nos deixam míopes, surdos... porém, tagarelas.


Já pontuei em várias ocasiões, inclusive num artigo (“Facebook é bom, mas é ruim”), minha opinião de que as Redes Sociais, até aqui, não criaram nenhum fato novo no cotidiano humano, apenas potencializaram as singularidades que a convivência interpessoal produziu ao longo do processo civilizatório. Por outro lado, alguns mais apressados ou menos atentos ao comportamento humano, afirmam que o clima de ódio e intolerância nas discussões, a apresentação pessoal através de um “perfil falso”, assumindo papeis que não são verdadeiros no dia a dia ou a tendência em expor “maravilhas de si mesmo”, demonstrando uma evidente vaidade, seriam fenômenos da atualidade.

Há até aqueles que, de maneira irritada, criticam a ferramenta e seu universo virtual dizendo que tudo ali não passa de falsidade. Sinto muito, mas o processo de agrupamento humano foi-se consolidando dessa forma: nos tornamos falsos uns com os outros, demonstramos o que não temos ou nem sabemos, mentimos uns aos outros e somos extremamente narcisistas ao longo dos anos. Obviamente que não nos comportamos assim de maneira deliberada (e, ás vezes, nem é proposital), mas sem dúvida que na construção de nossas defesas internas (emocionais) ao longo do tempo e de convivência produziu-nos essas caraterísticas como estratégia de aproximação uns dos outros. A explicação disso é complexa e engloba varias disciplinas (psicanálise, sociologia, antropologia, genética, etc.), e serão necessários alguns artigos para contemplá-la (ainda que superficialmente), mas, por ora, proponho tentar esclarecer, pelo menos a dificuldade na troca de opiniões, já que este seria o principal objetivo da Rede: “facilitar a conversa entre as pessoas”. Sendo assim, por que nos irritamos tanto num debate/conversa?

Dalgalarrondo, um grande estudioso brasileiro das funções psíquicas, afirma que “a vida afetiva é a dimensão humana que dá cor, brilho e calor a todas as vivências humanas”. Ou seja, é a “afetividade” que torna a vida mental saborosa e significante. As outras funções psíquicas (consciência, atenção, orientação, sensopercepção, memória, vontade, psicomotricidade, consciência do eu, linguagem e pensamento) são tão importantes quanto, porém, temos que admitir que a influência que ela (a afetividade) causa nas outras é avassaladora.

Ou seja, o estado de humor, as emoções, sentimentos e paixões são extremamente penetrantes sobre toda a vida mental, por exemplo: a atenção é captada, dirigida, desviada ou concentrada em função do valor afetivo de determinado estímulo; a memória é altamente detalhada ou muito pobre também em função desse valor dado, a sensação e percepção do ambiente estão disfarçadas conforme a emoção presente, a linguagem e o pensamento tem seu conteúdo principal determinado também pelo afeto, e assim por diante. A psicopatologia (ciência que estuda o funcionamento da mente e/ou seu adoecimento) define esse fenômeno como “catatimía” (influência da afetividade na vida mental).

Colocado esses preâmbulos, posso afirmar que o grande problema nas redes sociais é o fenômeno das chamadas “ideias prevalentes (ou catatímicas)”, ou seja, são ideias que, por conta da importância afetiva que tem para o indivíduo, adquirem uma predominância enorme sobre os demais pensamentos e se conservam obstinadamente na mente desta pessoa. Esse fenômeno é tão significativo que na prática clínica convivemos com vários exemplos de comportamentos de pacientes que perdem totalmente sua racionalidade ou lógica por conta de estar submetido ás ideias prevalentes, por exemplo, alguns “crimes passionais” e/ou violência entre os parceiros amorosos também podem ser explicados por conta da “catatimía”.

Nas Redes Sociais, as pessoas se dispõem a conversar, mas, por estarem potencializadas todas as características já citadas no inicio desse artigo, é muito fácil serem “pegas”, ou se equivocarem nas opiniões, por não interpretarem (ou mesmo nem ler direito) adequadamente o comentário do outro. E ai, o que poderia ser uma troca de opiniões interessante, transforma-se numa “conversa de míopes e surdos”, pois, a “ideia prevalente” afasta qualquer possibilidade de encontro construtivo e transformação de duas pessoas.

Portanto, não estranhe tanto quando o seu interlocutor passar a impressão de nem saber ler direito... Na verdade, nessa condição, não consegue mesmo, pois no Facebook, quer queiram ou não, os afetos nos deixam mais míopes, surdos... porém tagarelas.

Ou seja, ainda mais humanos... uns com os outros.   

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