Para sermos bons amantes


Um dos grandes mistérios em nossa cultura é compreender como duas pessoas podem permanecer juntas e casadas por vários anos. Fazer bodas de porcelana, prata, ou ouro é sempre um evento especial, onde os familiares se reúnem e orgulhosamente comemoram aquele casamento. Não é a toa que dão nomes de preciosidades aos vinte, vinte e cinco ou cinquenta anos de convivência conjugal.Por outro lado, inventamos o divórcio e, por conta disso, cada vez mais se torna comum às pessoas experimentarem conviver acasalados com parceiros diferentes por algum tempo. Dizem os estudiosos que isso foi uma maneira criativa que nós arrumamos para lidar com a nossa predisposição natural poligâmica, ou seja, buscamos ou precisamos de vários parceiros para acasalamento, mesmo que seja um de cada vez, instituindo a tal poligamia seriada.

É isso mesmo, somente algo em torno de 16% das civilizações humanas pesquisadas em todo o mundo propõem a prática cultural monogâmica. E como nosso cérebro está civilizado há pouquíssimo tempo, daí o cultivo dos vários casamentos/acasalamentos.
Talvez isso também explique porque, mesmo com tantos questionamentos atuais a respeito do matrimônio, os seres humanos continuem se casando da forma como estão. É um tal de casa, separa, casa, separa, casa... Tudo em busca do parceiro ideal.
Cabe salientar que a moda do “morar junto” também traz os mesmos obstáculos. Não vejo diferença na dinâmica dos casais oficialmente concordados ou oficiosamente combinados.Pode torcer o nariz, mas a Natureza sempre triunfa sobre a cultura... Portanto, por mais que inventemos novos nomes ou atitudes sobre o nosso cotidiano, ainda estamos condicionados aos instintos mais primitivos e, sendo assim, nós precisamos e queremos estar “acasalados” com alguém. Mesmo que esse alguém dure pouco tempo, tenha outros nomes ou esteja disfarçado de outra coisa.

Por outro lado sempre há uma saída para aqueles que pretendem criativamente lidar com o desafio de “acordar” pela manha com uma mesma pessoa por vários anos. Há que se estar atento ao que é chamado de atributos essenciais e seus derivados necessários em um relacionamento amoroso prazeroso.

Vejamos! Com tantos conflitos entre a Natureza e a Cultura, o desejo de ter e o medo de fazer, o sentimento e a razão, é óbvio ser indispensável à “inteligência” como primeiro atributo essencial em um candidato a parceiro amoroso. É preciso saber usar com originalidade, economia e eficiência todas as características constitucionais para lidar com as limitações da realidade ou da cultura.  Amante inteligente é aquele que te surpreende algumas vezes, dá respostas novas e inusitadas para algumas situações vivenciadas com ele. A mesmice de uma relação demonstra a falta de inteligência dos parceiros.

Mas nada adianta uma fortuna de características se não houver vontade e disposição para entrega, ou seja, “generosidade”. É preciso certo desapego quando se trata de ver o outro satisfeito. Amante generoso é aquele que te presenteia com sinais de vida e (re) descobertas, oferece coisas novas proporcionando situações únicas. A pobreza de uma relação indica a falta de generosidade entre os parceiros.

Juntem-se a esses atributos essenciais anteriores a “honestidade”, e teremos uma tríade infalível. Amante inteligente, generoso e honesto proporciona movimento vital, te enche de perguntas originando a vontade de achar respostas nele ou com ele. Mas, é preciso buscar essa honestidade, em primeiro lugar, em si mesmo e com seus sentimentos, não ter vergonha, nem medo dos erros e procurar a coragem de (re) aprender com a vida a dois.

Saliente-se que ser honesto não é o “dizer tudo”, mas é um “fazer sempre” pelo crescimento da relação. Inclusive, com discernimento para perceber o seu fim evitando maiores sofrimentos a ambos. Uma relação que deu certo, pode também terminar, antes que se transforme em algo que não gere crescimento aos seus participantes.

Dessa forma, e de posse desses atributos essenciais, é preciso “garimpar” diariamente seus derivados. A começar pela “reciprocidade”: se há a intenção de dividir o mesmo espaço é preciso valorizar e potencializar as afinidades. As diferenças podem e devem estimular a riqueza da troca. O companheiro recíproco aceita, também, a forma de ver, sentir e usufruir o mundo do outro.

Para isso é fundamental a “comunicação”, o segundo derivado. O cotidiano torna-se cativante quando aceitamos o desafio de “tentar” efetivamente trocar impressões sobre ele. Manter uma boa comunicação é fazer da rotina um meio, jamais um fim a ser alcançado, onde (re) inventamos o prazer da convivência. É melhor não saber arriscando com alguém do que achar que sabe convivendo com ninguém.

Associe, então, a esses derivados anteriores a “liberdade de ser” e teremos outra tríade valiosa. Amante com afinidades, comunicativo e que proporciona a liberdade de ser, faz do seu dia-a-dia um espaço mágico, onde as inevitáveis tensões não diminuem o desejo de estar disposto para o que der e vier com ele ou por ele.

Concluindo e apimentando tudo isso cabe você buscar manter o bom humor durante a árdua tarefa. Nesse caso, seu relacionamento amoroso estará valendo à pena, independente das bodas (seja de papel ou de diamante).  Afinal, para sermos bons amantes é preciso rir muito e fazer algumas piadas das crises, pois, por falar em prazer, nada é mais afrodisíaco do que o bom humor levado à cama.
Assim, eu vos declaro bons amantes acasalados...

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