O ser humano é o que a gente vê ou a gente vê o que ele não é?


 As aparências enganam? Talvez sim, talvez não.

Quem rebater negativamente a esta questão, provavelmente acredita na expressão corporal, cuja modelagem denuncia, sem dúvida, aquilo que o indivíduo tem como intenção de ser ou fazer. Por outro lado, aqueles que respondem positivamente, argumentam que a atitude percebida é também um ato de camuflagem, fruto de necessidades e desejos inconscientes, e, neste caso, a ação traz uma defesa para elaboração da realidade.

Por outro lado, há também os que contestam, afirmando que aquilo que se vê é sempre o real, dão como exemplo a “dança” do encontro amoroso. A similaridade das ações e reações nos casais enamorados é algo de causar inveja a qualquer conversa franca e honesta. Os corpos que se tocam silenciosamente enquanto namoram “tagarelam” trocando sensações, porém sem emitir palavras, pelo menos não é preciso.

Já os que optam por negar a importância das aparências citam algumas posturas em que a imagem esconde o reverso da ação. Por exemplo, a postura chamada de “lorde inglês”: coluna ereta, cabeça firme sobre os ombros, o olhar direcionado de cima para baixo e de forma distante – “o orgulhoso”.  Olhando-a ao revés, essa postura esconde suas costas frágeis e tensas, quase sempre doloridas. Portanto assistindo um orgulhoso andar temos uma imagem de arrogância e altivez para dissimular sua insegurança, fragilidade e medo da situação.

Ambas as opiniões estão bem fundamentadas e podem ser aceitas. Fica então a dúvida: o ser humano é o que a gente vê ou a gente vê o que ele não é?O que realmente passamos através da nossa imagem? Adivinhações à parte, o fato é que nosso processo de educação durante a infância pode esclarecer essa dúbia interpretação para nossas posturas corporais em fase adulta. Sendo assim, e com perdão da pretensão, gostaria de sintetizar, por ora, como este processo vai-se estabelecendo na criança ou no futuro adulto que vir a ser.

O pequeno filhote humano, ao nascer, é curioso, aberto, direto, despido, amplamente corporal e disposto em acolher o ambiente dentro de si. Ele toca o mundo a todo instante com seu olhar armazenando imagens e sensações. Porém, desde as primeiras horas de nascimento começa a lidar com uma realidade que lhe dá fome, frio, calor, sede, fartura, ou seja, satisfação e insatisfação. Aprende, por exemplo, após alguns meses, que um rosto sereno e feliz pode vir com um colo e a sensação de abrigo. Ao ocorrer isso, é abraçado por alguém que mais tarde descobre ser “mamãe”.  O contrário, também é aprendido: um rosto fechado, uma voz mais alta, vem sempre com a sensação de angústia. Assim, através de colos, tapinhas, falas e caretas vindos dos adultos vai assimilando que, por trás das “caras” pode vir à sensação de conforto e também a bronca ou a retaliação com o inevitável desconforto. Um bom exemplo disso são aqueles famosos almoços de domingo em família com algum convidado externo. Coitadas das crianças! Os olhares e as caras de “papai e mamãe” têm significados ambivalentes e, às vezes, conteúdo de uma missa inteira. Haja sermão sem palavras!

Enfim, as falas podem ser complementadas com uma expressão corporal adequada ou também serem disfarçadas com máscaras faciais totalmente inadequadas. Aprendemos que o corpo é um tagarela que pode omitir e também um mentiroso travestido de um tremendo dedo-duro. O resultado é justamente a aquisição da capacidade de expressão corporal deslocada da fala, ou da fala sem a adequada expressão corporal, ou seja, o descolamento do discurso do comportamento em si. A partir dessas colocações, pode ser mais fácil você perceber a confusa comunicação, entre as pessoas, que isto pode trazer. Imagine quantas mensagens com duplo sentido recebemos a todo instante em nossos encontros interpessoais. Dá para entrar em parafuso!

As aparências enganam? Sim e não. Depende da sua forma de olhar e sentir... Portando, bom seria para as relações que conseguíssemos manter a coerência do discurso com a ação, não acha? Já pensou se conseguíssemos mostrar no rosto  sempre, o que temos no coração? Sem dúvida que o encontro interpessoal seria muito mais honesto e prazeroso.
Não será esse um dos fatores de tantos desencontros que existem por aí?

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