O poder da fofoca


Em 1978, há quase 40 anos, Jose Ângelo Gaiarsa, lançou seu famoso livro “Tratado Geral sobre a Fofoca”. Sem dúvida foi a primeira vez que tal fenômeno humano (a fofoca) recebeu uma análise sociológica, histórica e psicológica. Na ocasião o polêmico pensador com seu peculiar sarcasmo já cobrava a “Academia” por conta de descaso e falta de estudos científicos sobre tão importante tema.

Certa ocasião tive o prazer de passar um final de semana inteiro em um  sítio com ele e, confesso, poucas vezes desconstruí tantos conceitos e “preconceitos” sobre o cotidiano humano proseando com alguém. Um deles foi tomar consciência de que todos nós temos um “fofoqueiro” interior, pois, como dizia Gaiarsa, “todos vigiam a todos pra que ninguém faça o que todos gostariam de fazer”. O brilhantismo intelectual dessa fala, a meu ver, também está no fato de que ela foi proferida décadas antes do Facebook (onde é muito mais evidente perceber sua veracidade). Cá comigo pensando, o que diria o mestre sobre a maioria das“timelines” que produzimos atualmente e estão nas nuvens da internet?!

Em outro artigo (Facebook é bom, mas é ruim) abordei a origem e importância dessa pratica de falarmos dos vizinhos na civilização humana, inclusive pontuei que as redes sociais potencializaram e institucionalizaram a fofoca em nosso dia a dia, cada vez mais todo mundo fala de todo mundo de maneira crítica.  Estudos  indicam ser esse fenômeno um dos fatores iniciais na construção de uma amizade, isso mesmo, algumas amizades se estabelecem por que duas pessoas falam de um terceiro concordando com as avaliações feitas deste. E assim surge um problema, ao falarmos de alguém, temos sempre a tendência de acharmos que estamos certos e o outro errado. Colocamos nele (o outro) todos os preconceitos que estão dentro de nós e ao adotarmos tal atitude acreditamos nos livrar do nosso defeito.

Obviamente que as consequências são drásticas, pois além de fazer mal ao outro, estamos comprometendo a possibilidade de mudança interna e melhorar a percepção de nós mesmos.  Caminhamos na mediocridade humana e construimos  mais ferramentas, comportamentos, valores culturais e crenças para vigilância uns dos outros. Sinto muito meus caros, mas é fato, celulares, redes sociais, aldeia global, comunidades, etc. nada mais são, também, do que “dispositivos” para vigiar o vizinho. E ai mais uma vez sou obrigado a concordar com Gaiarsa quando dizia que “o maior medo do homem é do seu vizinho”. Daí esta configuração social.

“A fofoca governa o mundo”, sem dúvida nenhuma. Todas as grandes instituições são administradas por elas. No mundo capitalista que vivemos  a bolsa de valores (onde “produzimos” nosso dinheiro) é consolidada na criação das fofocas e a capacidade de fazer com que os investidores acreditem nelas. Os chefes de Estado convivem diariamente com fofoqueiros insistentes que lhes impedem de uma governança mais tranquila, ou seja, os países são administrados e direcionados em seus projetos pelas fofocas. Nos “parlamentos” onde se deveriam discutir ideias, criar projetos e produtos sociais, todos os discursos dos congressistas são alvos dela antes, durante e depois do seu autor estar no púlpito defendendo suas propostas.

Todas as empresas privadas ou públicas constroem seu patrimônio de alguma maneira buscando as “fofocas mais atuais”. A família (para alguns, a tal célula da sociedade) também convive com esse fenômeno cotidianamente, senão como explicar os tais “mal estares” dos almoços de domingo ou de natal? E nem precisa haver cunhados presentes, pois até entre os “parentes biológicos” ela, a fofoca, está presente.

Em 2016, Leandro Karnal, outro importante pensador atual, também lançou seu livro sobre o tema: “A Detração: breve ensaio sobre o maldizer”. No livro, o autor nos esclarece com seu humor inteligente e “cirúrgico” o papel da fofoca nos debates sociopolíticos, tão em moda atualmente (também potencializado pelo Facebook). Fica-nos evidente o quanto o fenômeno tem contribuído para o acirramento das ideias e disputas entre os militantes e simpatizantes partidários brasileiros. Obviamente, como o próprio autor afirma, esta dinâmica aconteceu e acontece em todas as outras nações e contextos políticos. Sempre fomos, somos e seremos assim: fofoqueiros, intolerantes e “donos” da opinião correta, ao debatermos sobre importantes temas do nosso dia a dia.

Antes que algum fofoqueiro já saia por ai criticando meu “possível” pessimismo a respeito da convivência social, quero dizer que acho relativo os problemas de sermos assim, desde que tenhamos consciência da nossa inevitável miopia sobre o cotidiano, da nossa prepotência em sermos sempre o certo e o quanto temos medo do vizinho. Admitir estas três coisas internamente criamos a chance de olhar para o cotidiano e saber que não teremos todas as respostas. Portanto façamos mais perguntas; considerando como realidade a possibilidade de estarmos errados, pois o prepotente não vê o outro; e, ao nos aproximarmos do vizinho (acolhendo o medo) percebemos o quanto somos diferentes, mas não necessariamente melhor ou pior que ele. 

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