O carregador de chaves


Imagine se você pudesse entrevistar, pelo menos, 10 pessoas por dia sobre as intimidades delas, fazendo isso de segunda à sexta-feira por mais ou menos 30 anos. Desconte os períodos de descanso, viagens ou feriados. Faça as contas e descobrirá que a vida lhe ofereceu a oportunidade de conhecer a história de vida de aproximadamente 70.000 pessoas. Cada uma delas esclarecendo para você ideias, comportamentos e conceitos adquiridos sobre o jeito humano de ser.


Foi o que aconteceu comigo desde 1988 quando terminei minha especialização em Psiquiatria e Psicologia Médica , me propus a ser psiquiatra e psicoterapeuta, fazendo atendimento clínico às pessoas portadoras de algum sofrimento psíquico. Cada um desses sujeitos, que por algum motivo me procurou para contar suas angústias, deu-me a chance de investigar nossa condição humana e seus mistérios. Por exemplo, pude perceber o quanto à sociedade, de uma maneira “míope” e descuidada, avalia os indivíduos e conseqüentemente, são estabelecidos, de forma fácil, pré-julgamentos superficiais e deslocados sobre os comportamentos.


Durante essa especialização morei (literalmente) em um hospital psiquiátrico (na cidade de Campos do Jordão/SP) que mantinha os pacientes asilados. Eles não tinham ou não conviviam com suas famílias e só saiam da instituição acompanhados pela equipe técnica (da qual eu fazia parte) para atividades de socialização (passeios, eventos, etc.). Assim ao longo da semana eu fazia minhas refeições, dormia, assistia televisão, trocava ideias no pátio e passeava com esquizofrênicos, epilépticos, paranoicos, depressivos e outros. Nos finais de semana voltava para casa (em Itajubá/MG) e recém-casado tentava construir minha nova família.
Algumas situações vividas nessa época foram extremamente marcantes para mim, lembro-me, por exemplo, de certa ocasião em que assistia a um jogo de futebol com um epiléptico, um esquizofrênico, um obsessivo-compulsivo e um enfermeiro bastante engraçado. Todos amantes do futebol, e cada um torcendo “fanaticamente” pelo seu time (apesar e/ou independente dessa chamada “saúde mental”). Foi muito divertido e hoje relembrando acho que essa situação nos remete àquela piada sobre a diferença entre o psiquiatra e o louco: um deles é o “carregador das chaves” das portas do hospital.


Brincadeira à parte e preconceitos desprezados, senti na pele o quanto um comportamento humano pode ser bem compreendido se você olhar, ouvir e perceber com interesse ao outro sem a postura de ser melhor ou maior que ele. Conviver assim tão próximo dos “loucos” me ensinou a vê-los como pessoas bastante interessantes e, de certa forma, também compreender minha própria “esquisitice”. Enfim, dessas histórias vividas e ouvidas das pessoas observadas, das inúmeras lições de vida aprendidas e por “força” da profissão absorvi uma série de ideias sobre o jeito humano de ser, além de me tornar eternamente curioso e predisposto a aprender sobre esse jeito de “ser gente”.Acredito, também, que se percebemos nossa história de vida como um indomável bicho de sete cabeças é porque não refletimos sobre nós mesmos com o devido cuidado e atenção. Complicamos o que vemos por não conhecermos o que temos e o que somos.E, cá entre nós, observar a nós mesmos, também é um ótimo caminho de aprendizado. Portanto, mantenha olhos e ouvidos atentos a si mesmo. 

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