Isolamento social: ironicamente uma realidade atual


Todo indivíduo que, voluntária ou involuntariamente, estiver sentindo-se isolado perante seu grupo social, excluído da convivência com seus pares e/ou privado de ter contato/trocas emocionais com outras pessoas está em isolamento social.

Esta condição pode afetar drasticamente a saúde, individualidade e/ou a capacidade de percepção adequada de si mesmo e de sua autoestima. Sendo assim, cabe a este indivíduo (ou a seus amigos e familiares) buscar as causas dessa situação e tratamentos que possam evitar que o mesmo seja acometido ou desencadeie, por exemplo, doenças como depressão, esquizofrenia, fobias, estresses, etc. Além disso, os estudos mostram o quanto o isolamento social aumenta o risco de morte; mais que o tabagismo, sedentarismo ou obesidade. 

Por outro lado, é de se estranhar que, numa sociedade onde a internet nos deu a possibilidade de cada vez ter mais “contato” com outras pessoas, esse fenômeno esteja acontecendo tão comumente. Ou seja, é comum descobrirmos pessoas em sofrimento por conta dos efeitos deste estado, bem como sem alternativas adequadas para sair dele. Vejamos: através de um simples celular nos dias atuais, é possível ter vários contatos, grupos e experiências diversas de potenciais interações interpessoais. Mesmo assim, é quase que diário termos pessoas procurando a ajuda de psiquiatras ou psicólogos com queixas de sensação de isolamento e vivências solitárias, além de terem uma autoestima bastante comprometida pela falta de trocas emocionais adequadas. Alguns estudos ainda mostram que isto que vem acontecendo em vários países.

Um dos fatores fundamentais para esclarecer esta situação está na qualidade da comunicação construída em nossos cotidianos. O ato de comunicar não é simplesmente a emissão de informações e mensagens. Vai muito além disso, e, necessariamente, quem comunica deve ser e ter a vivência da transformação interna, da revisão de conceitos e sensações, a partir do outro, levando (ambos) ao ajustamento psicossocial. É fundamental a possibilidade de ouvir e ser ouvido verdadeiramente, emocionar e ser emocionado pelo interlocutor. Todo encontro deve formar ou transformar duas novas pessoas que se (re) inventam. Por outro lado, o que temos assistido e percebido é muito mais a confirmação, valorização e imposição de preconceitos (étnicos, de gênero, culturais, religiosos, econômicos, aparência física, etc.).  E assim, nos potenciais encontros, a agressividade ou vaidade predominantes impedem as trocas afetivas saudáveis. Portanto, a convivência sem uma comunicação adequada não favorece a interação social.

Fatores desencadeantes e/ou grupos predispostos: 

Percebemos vários grupos sociais onde o surgimento do isolamento social tem sido cada vez mais frequente. Por exemplo, entre os idosos, cujas singularidades têm produzido cada vez mais a situação de solidão, por conta da dificuldade, seja da família ou da sociedade, de verdadeiramente conviver com estas pessoas. Além destes, percebemos as mesmas posturas em relação a alguns grupos sociais e minorias excluídas (por questões de etnia, portadores de doenças estigmatizantes, culturais, religiosas ou condições econômicas). Ou seja, a exclusão social, se estabelecida, consolida a condição de comprometimento global da saúde mental e física, a partir do isolamento que agrava as singularidades e fragilidades destas pessoas.

Atitudes e/ou características constituintes: 

Nestas pessoas costumamos perceber uma tristeza ou introversão no convívio, posturas de timidez ou medo, ideação pessimista sobre si mesmo e seu ambiente, maior predisposição ao adoecimento físico e mental (desnutrição, obesidade, disfunções hormonais, depressão, esquizofrenia, fobias, etc.). Os estudos mostram que a percepção delas sobre si mesmas e o seu ambiente são hereditariamente determinados e define a sensação de solidão, independente das interações interpessoais a que são submetidas.

Tratamentos possíveis:

Obviamente que quanto maior conhecimento as pessoas tiverem de si mesmas, suas características e possibilidades interpessoais, maiores serão as chances de evitar contextos desencadeantes desse estado. O estabelecimento de redes sociais diversas é um fator fundamental para prevenir e remediar situações. Nesse caso, a adequada inserção e convivência familiar, de amigos e conhecidos diversos são preventivos.

Nada estimula melhor um cérebro humano do que o encontro com outro cérebro. Ou seja, cabe sempre o estimulo às interações interpessoais e os processos de autoconhecimento possíveis. Em alguns casos torna-se necessário uma ajuda profissional, seja do psicólogo ou do psiquiatra. É importante dizer que as alterações agravadas ou desencadeadas por esse estado têm componentes emocionais e biológicos, sendo que ambos devem ser tratados. 

Portanto, pessoas acometidas por depressão, esquizofrenia, estresse, ansiedade generalizada, dependência química, alcoolismo, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos fóbicos, transtornos de personalidade, transtorno alimentar, além de obesidade, deficiências físicas, retardo do desenvolvimento, AIDS ou outras doenças estigmatizantes merecem e devem também ser cuidadas em relação a esta condição do isolamento social.

Concluindo, havendo pessoas próximas de si com comportamentos ou atitudes que indiquem o estado descrito, cabe o cuidado, estímulo e procura por condições que evitem um maior agravamento da saúde. Por outro lado, cabe uma provocação e reflexão pertinente e de caráter preventivo: como anda sua interação social e/ou como você tem contribuído para facilitar a interação do outro consigo mesmo?

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