Ficar, namorar e casar para ter raiva do outro


Essa história de “vida a dois” tem inúmeras variáveis tornando-se um processo bastante complicado. Mas, se tentarmos compreendê-lo a partir de alguns fatos pode-se facilitar o entendimento sobre o que ocorre nesse encontro.  Primeiro é preciso considerar que, apesar da evolução conquistada pela espécie humana ao longo dos milhares de anos, algumas leis biológicas continuam inalteradas e determinantes para os nossos comportamentos. Por exemplo: somos animais mamíferos, portanto a procura pelo parceiro amoroso tem como objetivo básico fundamental a reprodução para perpetuação da espécie e a proteção da prole. Nós, animais-humanos, somos assim: gostamos de transar, paquerar, avaliar novos parceiros e acumular patrimônio. Inventamos o divórcio e o tal contrato matrimonial, acreditamos no amor eterno; mas, no fundo mesmo, nosso maior objetivo é sempre ter herdeiros e protegê-los.


Várias pesquisas científicas têm demonstrado que o ser humano continua se casando ao longo dos tempos apesar do aumento do número de divórcios e independentemente da cultura ou crença, continuamos procurando o parceiro amoroso. É óbvio que temos algumas exceções de pessoas que por convicção permanecem solteiras, e,nem mesmo têm conflitos ou traumas por isso; outros, infelizmente, não são bem assim e têm suas próprias razões. Mas estes são a minoria e, por ora. , não serão objetos dessas considerações.Enfim, podemos concluir que a grande maioria dos seres humanos se casa, e, pelo jeito vai continuar se casando, na tentativa de multiplicar sua espécie e proteger seus filhotes.


Em contrapartida, os parceiros amorosos manifestam uma infinidade de queixas e obstáculos nessa história de morar juntos. Nos consultórios dos psicoterapeutas, as ditas crises amorosas são um dos principais motivos que fazem com que as pessoas se desestabilizem e procurem esse tipo de ajuda. Há ainda situações extremas de casais que fazem de seu convívio uma constante arena de agressões e desrespeito.Há alguns anos atrás cheguei a uma conclusão, e minha experiência clínica só vem constatando o fato: as relações amorosas, infelizmente, têm sempre certa dose de sadomasoquismo, ou seja, os parceiros, de um jeito ou de outro, no seu dia-a-dia,estão sempre fazendo o outro sofrer.

 
Obviamente, concordando ou discordando, você deve estar se perguntando: porque fazemos desse inevitável fenômeno da Natureza, que é o acasalamento, esta espécie de purgatório?Tenho cá minha conclusão: viver a dois é, antes de qualquer coisa, uma forma de arranjar um cúmplice para a estratégia, consciente e inconsciente, de cada um para participar e estar no mundo. Vejamos, é na adolescência que iniciamos essa aventura de procurar o parceiro fora da família (a tal exogamia): paqueramos daqui, paqueramos de lá, ficamos, enrolamos, temos alguns casos, namoramos, transamos e um belo dia vamos para debaixo de um mesmo teto. Cada um leva para a nova casa uma carga de valores e princípios. Junto vão também as defesas e/ou estratégias para buscar seu prazer e evitar o desprazer aprendidos na infância. Pode acreditar que antes de dizer o tal “sim” no altar, já foram estabelecidos vários encaixes e todas as possibilidades de cumplicidade. Praticamente montamos um quebra-cabeça inconsciente com peças de ambos os envolvidos e partimos iludidos para a “nova vida” com a fantasia de termos achado a nossa “cara metade”.


Entretanto, após algum tempo de convívio, começamos a ter raiva quando somos frustrados pelo outro, afinal não somos totalmente satisfeitos por ele.  Temos raiva de ele pensar ou agir distinto do que imaginávamos, de querer diferente, dele olhar para outro ou dar mais importância à outra coisa que não seja nós mesmos, de ficar ou estar feliz sem a gente, de não adivinhar o que queremos, e quando sabe não faz assim mesmo.Em suma, temos raiva do outro ser o outro e não o que nós queríamos ou planejamos que ele fosse. Podemos até continuar gostando, mas também temos muita raiva desse outro.
Portanto, de certa forma, a aventura de “amar alguém”nos torna cúmplices de uma “armadilha” quase inevitável: achar uma pessoa, ficar, namorar, casar e ter raiva por ela não ser exatamente como gostaríamos que fosse

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