Espelho, espelho meu... Há alguém mais bonito que eu?


Verão é tempo de sol, de ir à praia ou ao clube, vestir pouca roupa e muita... muita “azaração”, como diz a “galera”. Portanto é nessa época que percebemos mais fortemente aquilo que, a meu ver, tem sido a marca da juventude atual: o culto ao corpo. Portanto, é preciso “malhar” e banir a famosa e incômoda barriguinha, ou seja, correr atrás de um corpo bonito. Até aí tudo bem. Claro que concordamos e louvamos a alimentação saudável, o cuidado com o corpo e o clima de paquera no ar. Afinal, nós, seres humanos, somos assim, adoramos “olhar” e sentir o outro. O importante é socializar e trocar emoções.  É assim que a vida cria sentido.

O corpo tem sido um templo a ser cultuado e idealizado. Os ídolos têm cada vez mais uma aparência sedutora, cativante e esteticamente carismática. Porém, a sociedade moderna, contraditoriamente como sempre, não nos facilita o caminho, pois tudo é muito rápido: “fastfood”. As informações são renovadas absurdamente. Tudo é transmitido ou oferecido superficialmente – interneticamente estabelecido. E, em se tratando de corpo, minha formação médica me ensinou que, quanto mais lento, mais cuidadoso, mais criterioso e mais personalizado, melhor para a sua saúde. È tudo que estes regimes não são não acha? Falo daqueles que dizem ter sido criados para melhorar o corpo, perder uns “quilinhos” em tantas semanas etc.

Enquanto isso, quem de nós ainda não se viu em frente a um espelho dizendo: preciso melhorar isso aqui, perder ali, aumentar assim e por aí vai?
Dizem que ele – o espelho – reflete a nós mesmos... Porém anda parecendo que na verdade se tornou um dos nossos piores inimigos. O peculiar é que o espectador que nos observa quase sempre não concorda com o que nosso espelho nos diz:
- Mas você está ótimo, diz alguém.
- Você está horrível, retruca nosso espelho.
Eis ai o problema: como ter um corpo bonito se o mundo pede pressa e perfeição e, além disso, se a tal autoestima das pessoas anda em baixa?

Primeiro é preciso denunciar que a forma como somos educados – civilizados – compromete nossa acuidade visual. Aquilo que quase sempre vemos não é aquilo que deve ser dito e aquilo que quase sempre dizemos não é aquilo que enxergamos.
Desde pequeno apreendemos com os adultos que as mensagens do corpo não precisam ser necessariamente coerentes com as palavras ditas. Dizer a verdade pode ser muito mal educado, pouco gentil ou civilizado. Inventou-se até uma tal de “polidez” que determina que por causa dela não se deve passar a algumas pessoas o que sentimos, mesmo que isso seja importante para nossa convivência. Olhamos sim, mas enxergamos e dizemos muito pouco as pessoas daquilo que realmente vimos.

Portanto, o corpo do qual falamos não é, muitas das vezes, o corpo que sentimos. Saliento que o corpo fala demais – é quase um tagarela – e infelizmente poucos o escutam. E, para realmente conversar com alguém, seria bom se ouvíssemos também o diálogo entre os corpos. Perceber aquilo que está na cara de quem diz...
Não sei se percebeu, mas cultuar o corpo pode significar uma tremenda armadilha, pois podemos estar moldando o corpo que se vê, valorizando a imagem do espelho (quase sempre mentirosa) e não estarmos enxergando o corpo que sente (nossos desejos, verdades e necessidades). Lembre-se que Narciso, no mito gregose deu mal ao ver sua imagem porque se esqueceu de fechar os olhos e sentir seu coração.

Mas, cá entre nós, você, nesse instante, pode estar se perguntando: o que fazer, então, com a incômoda insistência social em bronzear, plastificar, rejuvenescer e idealizar o corpo? Há uma sugestão cultural bastante sedutora, porém os argumentos são ilusórios e mentirosos. Podem acreditar... As palavras ditas podem esconder seus sentidos se não olhamos verdadeiramente o rosto e a expressão de quem as diz. As pessoas, na verdade, escondem o medo de se expor ou de se dispor sendo evidente a má vontade em tentar trocar. Mentimos descaradamente uns aos outros o tempo todo. Ou seja, cultuamos a imagem e menosprezamos a alma.

Sendo assim, suponho que se você insistir em tentar buscar suas respostas no espelho de seu banheiro acho muito difícil que as encontre. Porém se tiver paciência com o “binóculo” de seu coração vai encontrar perguntas mais adequadas e bem mais verdadeiras a respeito de si mesmo. Não tenha receio em fugir da tirania da estética: aprecie-se por dentro, medite sem vergonha, feche os olhos e veja o mundo com o coração.

Quanto ao corpo?!  Bronzeie-se, se quiser... Também acho bonito, mas não se esqueça de “malhar” a alma de vez em quando.

Recomendamos para você