Cinema que ensina


 A arte cinematográfica é muito interessante e didática ao ser usada como recurso para esclarecimentos sobre o comportamento das pessoas. Isto não só pelas histórias propostas ou pelos personagens dramatizados, mas também pela própria maneira como um filme é produzido: desde o argumento inicial, construção do enredo, passando pelo roteiro, proposta de direção, filmagens e edição final. Nos faz lembrar muito o modo como construímos nossa trajetória de vida.Vejamos: ao nascer somos o “argumento” de nossos pais, pois antes mesmo do parto eles já nos dão um nome, algumas características iniciais e outras futuras. A este respeito, certa vez, ouvi uma frase esclarecedora – “Todos nós já fomos o sonho de alguém um dia”. A família, ao estabelecer um caminho a ser seguido (que alguns chamam de educação) pela criança, define o “roteiro”.  Papai e Mamãe vão mais longe e decidem, inclusive, os modelos a serem seguidos no transcorrer da vida. Neste caso funcionam como “diretores” (daqueles bem incisivos) e nos impõem o ritmo, o foco e a proposta de abordagem do “enredo”. As “filmagens” iniciadas desde o parto são cenas e mais cenas onde vão se construindo um protagonista ansioso por ser e/ou estar feliz.

Algumas vezes nosso filme é romântico, outras parece suspense, noutros  pode até ser uma comédia ou tragédia. Independente do estilo é sempre um drama a ser vivido, cujo epílogo nos causa medo ou apreensão. Desfocamos as imagens e insistimos em interpretar o enredo de modo imaginário, isso sem falar nas vezes em que “queimamos” nosso filme com algumas atuações desastrosas. Mas, notemos como podemos aprender sobre nós mesmos com esta arte, e para tanto, sugiro buscarmos inspiração no meu filme predileto: “Cinema Paradiso” de Giuseppe Tornatore.

Neste filme, Tornatore, de modo poético e instigante, nos presenteia com a história de um cineasta (Salvatore) que ao receber a notícia do falecimento de um amigo-mestre de infância e juventude (Alfredo) se vê obrigado a voltar à sua cidade natal, rever pessoas, situações, emoções e refazer perguntas, ainda sem respostas, sobre si mesmo. Amantes do cinema, ambos, trinta anos antes, testemunharam a vida passar durante as matinês cinematográficas daquela pequena cidade italiana. Nessas ocasiões, os moradores assistiam aos filmes sempre juntos, mantendo os mesmos padrões de comportamento, cada um com seus conceitos e seus modos de ver a vida.
Já adulto, Salvatore, de menino curioso e apaixonado, transforma-se em um homem triste e ansioso por reencontrar sua amada adolescente nas várias mulheres que posteriormente conheceu e não reconheceu. Manteve sua relação com o cinema e disto fez sua manifestação artística, talvez sua própria vida. Já o amigo Alfredo, que se tornara cego em um acidente, mostra-se sempre com um “olhar” adiante de seu tempo, percebendo, inclusive, o potencial daquele moleque travesso. Sendo assim, o “mestre” simula uma briga e o “expulsa” da pequena cidade oferecendo-lhe o mundo a ser conquistado. Por outro lado, ao morrer, Alfredo “obriga” Salvatore a voltar à cidade e refazer suas perguntas, pois, havia uma última lição a ser ensinada pelo amigo-mestre.

Bem, é claro que não conseguiria descrever aqui toda a riqueza desta trama, mas garanto ser uma lição de vida encenada e ensinada. Queira Deus que, pelo menos, eu tenha conseguido estimular sua curiosidade em ver um dos filmes mais belos que já tive o prazer de apreciar. Entretanto, e por ora, quero salientar somente a possível metáfora a ser feita com a última cena: nesta, Salvatore vê uma montagem de dezenas de cenas de outros filmes (feita por Alfredo durante anos) e chora descobrindo-se a si próprio (ou melhor, aquilo que deixou de fazer de si mesmo).
Conforme já disse antes, nossa história de vida é um filme a ser construído. De certo modo estamos presos em um “argumento” criado a nossa revelia, um “roteiro” previamente estabelecido e uma “proposta de direção” (nossos pais) que, apesar de nos dar segurança, é também responsável pela nossa maior insegurança (o medo de sermos nós mesmos). As cenas são repetitivas, os diálogos, às vezes, não nos oferecem muitas chances de improvisos (isso, obviamente, se houver acomodação de nossa parte), mas a montagem não é linear. As possibilidades são diversas, portanto a “edição” é infinitamente possível de ser feita. Não há como negar, vários são os caminhos possíveis. Mas, como em Cinema Paradiso, onde o pequeno Totó (Salvatore) descobre que Alfredo não desperdiçou os pedaços de película, fazendo delas uma montagem brilhante de “cenas de amor”, ou seja, ele as editou ao seu desejo; assim também pode ser a nossa história. Acredite!

As pessoas podem parecer às mesmas, os comportamentos podem se repetir, os desejos nem sempre serão realizados e as aparências até não demonstrarão aquilo tudo que pode ser visto, mas o desfecho final vai depender sempre da edição feita por você. Isso mesmo, cá entre nós, pode até ser que alguns dos créditos de seu filme podem (ou serão) ser dados a qualquer um, exceto a edição final, que deve ser sempre de sua autoria. Assuma, escreva e edite sua trajetória.

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